Em setembro, o barro do Vale do Jequitinhonha atravessará o Atlântico. Cerca de 150 esculturas produzidas em comunidades de uma das regiões mais singulares de Minas chegarão a Paris para ocupar a mostra A Terra Modelada pela Arte, no Marais, e a Maison & Objet, uma das principais vitrines internacionais do design. Cinco artesãos acompanharão suas obras, levando consigo não apenas peças modeladas à mão, mas memórias familiares, técnicas ancestrais e uma maneira de transformar terra em linguagem.
O Sebrae Minas trabalha há mais de vinte anos com o artesanato do Vale. O percurso é anterior a qualquer presidência e passou por qualificação, gestão, design, valorização da origem e acesso a mercados. A chegada a Paris deve ser compreendida, portanto, como culminância de uma construção coletiva. Sob a presidência de Marcelo de Souza e Silva no Conselho Deliberativo, entretanto, esse processo alcança uma nova escala de internacionalização. Ao falar sobre a iniciativa, ele encontrou uma síntese que ultrapassa o próprio artesanato: “O mercado internacional procura autenticidade, origem e produção autoral”.
Talvez seja uma boa imagem para começar a compreender sua trajetória. Há algo de Marcelo nesse movimento de levar o Jequitinhonha ao mundo sem pretender que ele deixe de ser Jequitinhonha. Durante quase quatro décadas, sua carreira parece ter sido uma contínua ampliação de escala: primeiro o próprio negócio, depois o setor, em seguida a cidade e, finalmente, o território. No fundo, porém, permanece uma mesma pergunta: como organizar pessoas, instituições e conhecimento para transformar aquilo que alguém sabe fazer em trabalho, autonomia e desenvolvimento?
Sempre o compreendi como um ativista e um idealista, embora nenhuma dessas palavras, isoladamente, seja suficiente. Seu idealismo não é contemplativo; manifesta-se no trabalho, na articulação e na insistência. Seu ativismo tampouco é essencialmente partidário. Marcelo pertence antes à tradição da sociedade civil organizada, esse espaço intermediário entre indivíduo e Estado no qual interesses particulares precisam aprender a se transformar em alguma forma de interesse comum.
Tocqueville percebeu nas associações uma das grandes escolas da democracia. É nelas que se aprende a representar, negociar, discordar, construir confiança e reconhecer que aquilo que não conseguimos realizar individualmente pode tornar-se possível pela ação coletiva. Marcelo foi formado precisamente nesse universo e, em boa medida, nunca saiu dele. Mesmo quando passou pelo Estado ou experimentou a política eleitoral, seu território mais constante continuou sendo o da mediação entre quem produz, quem governa, quem regula e quem precisa ser ouvido.
Conheci-o quando Belo Horizonte reaprendia a ocupar suas ruas. Eu presidia a Fundação Municipal de Cultura e ele participava da administração municipal, passando pelo desenvolvimento econômico e pela Regional Centro-Sul. Era o tempo em que o Carnaval contemporâneo da cidade crescia vertiginosamente pela força dos blocos e nos obrigava a aprender enquanto a festa acontecia. Cultura, trânsito, limpeza urbana, segurança, comerciantes, moradores e foliões precisavam encontrar novas formas de convivência. Era necessário organizar sem domesticar, oferecer estrutura sem retirar a liberdade que havia feito a festa renascer.
Foi naquele ambiente de urgências, reuniões e interesses nem sempre convergentes que comecei a perceber uma característica de Marcelo que o tempo apenas confirmaria: diante de um problema que considera relevante, ele entra. Conversa, procura alguém, articula outra instituição, insiste, volta ao assunto. Anos depois encontrei numa entrevista uma frase quase coloquial que parecia explicar o método: “Meu hobby maior é o relacionamento”. Ao desenvolvê-la, falava de conhecer pessoas, saber ouvir e construir credibilidade. Relação, para ele, nunca pareceu significar apenas sociabilidade. É ferramenta de realização.
Essa capacidade de construir pontes convive, entretanto, com uma personalidade forte. Seria injusto transformar sua biografia numa sucessão de virtudes sem tensão. Marcelo pode ser impaciente, incisivo e, por vezes, genioso quando o tempo das instituições não acompanha o tempo de suas convicções. A proximidade de muitos anos ensina também que reconhecer alguém não exige concordar sempre com ele. No seu caso, potência e limite parecem nascer frequentemente do mesmo lugar: a inquietação que produz atrito é também aquela que o impede de aceitar passivamente que as coisas permaneçam como estão.
Talvez sua característica mais reveladora seja justamente esta: Marcelo acredita nas instituições o suficiente para não se conformar com elas.
Essa disposição começou a tomar forma ainda na juventude. Ele chegou à vida adulta quando o Brasil atravessava a redemocratização e a sociedade voltava a descobrir partidos, sindicatos, associações e entidades de representação. Em 1989, enquanto concluía Administração, abriu com um colega a Ponto do Zíper Aviamentos, na Savassi, atendendo sobretudo aos confeccionistas ligados ao então vigoroso polo da moda do Barro Preto. No mesmo ano ingressou na CDL Jovem de Belo Horizonte. Empresa e associativismo nasceram praticamente juntos em sua vida.
Vieram depois a formação em Ciências Contábeis, outros empreendimentos e a experiência diária de cliente, fornecedor, tributo, funcionário, crédito e risco. Antes de conhecer o empreendedor por números e pesquisas, Marcelo conheceu sua realidade no cotidiano do próprio negócio. Essa origem explica muito do que viria depois, porque sua atuação institucional quase sempre procura remover algum obstáculo que ele próprio, em determinado momento, conheceu na prática.
Talvez por isso tenha dito, já numa etapa madura de sua trajetória, que para empreender é preciso conhecimento e que continuava buscando aquilo que ainda desconhecia. Há nessa afirmação uma humildade prática importante. O impulso de fazer, em Marcelo, não parece nascer da certeza de que já sabe o suficiente, mas justamente da sensação de que ainda há alguma coisa a aprender, aperfeiçoar ou experimentar. Sua inquietação também é uma forma de permanência no aprendizado.
A CDL Jovem seria sua primeira grande escola política, no sentido republicano da palavra. A partir dela, passou às estruturas da CDL/BH e aprendeu que representar não significa apenas defender interesses já organizados, mas criar convergências entre pessoas que dificilmente chegariam sozinhas à mesa das decisões. Entre 2007 e 2009, na Junta Comercial de Minas Gerais, essa experiência encontrou tradução no Minas Fácil, programa destinado a simplificar e integrar os procedimentos de abertura de empresas. O empresário que havia conhecido a burocracia passava a trabalhar para reduzi-la para quem viesse depois.
Na Prefeitura de Belo Horizonte, sua unidade de pensamento se ampliou. Já não era somente a empresa ou o setor, mas a cidade. A experiência na Regional Centro-Sul o colocou diante da materialidade da vida urbana, na qual conceitos se transformam em calçadas, trânsito, obras, comércio, festas, vizinhança e conflito. Participou das articulações em torno da revitalização do Barro Preto, justamente o território ligado à origem de sua própria experiência empresarial. Há uma circularidade quase literária nisso: o jovem que vendia aviamentos para aquele polo retornava, décadas depois, como gestor interessado em sua recuperação.
Quando assumiu a presidência da CDL/BH, em 2019, Marcelo chegou ao comando de uma instituição que conhecia havia cerca de trinta anos. Talvez por isso tenha parecido menos interessado em administrá-la como a recebeu do que em perguntar o que mais ela poderia ser. A sede da Avenida João Pinheiro foi revitalizada, ganhou novos ambientes de convenções e formação, e sua dimensão cultural foi ampliada até que o Ponto Cultural CDL ingressasse no Circuito Liberdade. A reforma do edifício acompanhou uma transformação de conceito: comércio, inovação, memória e cidade começaram a ser tratados como dimensões de uma mesma instituição.
Sua atuação associativa ultrapassou também os limites de Belo Horizonte. Ao assumir a presidência da CDL de Nova Lima, Marcelo acrescentou uma dimensão metropolitana a esse percurso, num território em acelerada transformação urbana e econômica. A passagem reforça uma característica que aparece de modo recorrente em sua trajetória: pensar o desenvolvimento não apenas a partir das fronteiras administrativas, mas das relações efetivas entre cidades, empresas, circulação e vida cotidiana.
Essa concepção alcançou uma forma especialmente concreta em 2026, com a criação do Horizonte – Inovação Empreendedora, instalado ao lado da sede da CDL/BH em parceria com o Sebrae Minas. Diagnóstico, gestão, criação, tecnologia e experimentação foram reunidos num mesmo lugar para enfrentar problemas reais dos negócios. Marcelo sintetizou o espírito do projeto numa frase que poderia também descrever sua própria formação: “Não é só ensinar, é ajudar a aplicar”. Há outra circularidade reveladora nesse percurso. O jovem que aprendeu fazendo, no cotidiano de um empreendimento ainda nascente, chega décadas depois à criação de um espaço pensado justamente para que outros empreendedores possam transformar conhecimento em prática sem precisar descobrir tudo sozinhos.
Na própria posse na CDL, em 2019, Marcelo prometeu trabalhar de maneira “incansável” pelo desenvolvimento econômico e social de Belo Horizonte. A palavra, vista retrospectivamente, é curiosamente precisa. Sua gestão atravessaria pouco depois a pandemia, talvez a maior prova de sua vida associativa. Diante de milhares de comerciantes e prestadores de serviços que não sabiam se conseguiriam reabrir as portas, tornou-se uma das vozes mais presentes no debate público. Discordou, cobrou diálogo, assumiu posições e o desgaste inerente a elas, enquanto a entidade procurava construir crédito, redução de custos, inovação, capacitação e instrumentos de transformação digital.
Aquele período também o conduziu à disputa pela Prefeitura de Belo Horizonte, em 2020. Foi uma passagem breve pela política eleitoral, e talvez justamente essa brevidade revele algo. Marcelo é profundamente político, mas sua natureza parece ser menos a do profissional de eleições que a do dirigente associativo. O poder, em sua trajetória, quase nunca aparece sozinho; vem revestido de conselho, entidade, parceria, diretoria, negociação. Seu lugar recorrente é a mesa onde interesses diferentes precisam encontrar alguma linguagem comum.
Mesmo em 2026, no calor da disputa estadual, a CDL/BH preferiu organizar uma agenda institucional e levá-la aos candidatos ao Governo. É uma continuidade coerente: participar da política sem transformar a entidade em partido, convertendo demandas da sociedade organizada em proposições ao poder público.
A chegada à presidência do Conselho Deliberativo do Sebrae Minas, em 2023, foi outra ampliação de escala. Ele já conhecia a instituição havia muitos anos. O que mudou foi a geografia. Se a CDL lhe dera Belo Horizonte como principal laboratório, o Sebrae lhe apresentou Minas Gerais inteira. E é nessa fase que sua trajetória se torna, a meu ver, intelectualmente mais interessante, porque sua compreensão do empreendedorismo se torna progressivamente territorial e, por isso mesmo, mais humana.
Marcelo começou pensando o próprio negócio. Com o tempo, aprendeu a pensar a cidade, as instituições e, finalmente, o território.
O turismo talvez seja o melhor exemplo. O Sebrae Minas já possuía uma história importante no setor, mas entre 2023 e 2026 ele ganhou centralidade especialmente visível e passou a dialogar de maneira integrada com cultura, gastronomia, patrimônio, economia criativa, capacitação, governança e mercado. Pelo Check-in Turismo, foram estruturadas experiências ligadas às artes, aos cafés, aos queijos, à fé, ao Caparaó, ao Peruaçu, ao Espinhaço, ao afroturismo e a diferentes vocações regionais. Mais do que a quantidade de rotas, importa o princípio que as reúne: nenhum destino se sustenta apenas pela paisagem; é preciso que haja comunidade, identidade, serviços, governança e gente capaz de transformar visitação em desenvolvimento.
A Rota das Artes talvez seja a expressão mais sofisticada dessa concepção. Barroco, modernismo e arte contemporânea deixam de ser patrimônios isolados para formar uma experiência que conecta Belo Horizonte, Brumadinho, Congonhas, Ouro Preto, Mariana e outros territórios, aproximando museus, igrejas, Inhotim, ateliês, paisagem, gastronomia e empreendedores. Depois de estruturadas, essas experiências chegam às feiras e aos compradores. Patrimônio deixa de ser apenas cenário e passa a integrar uma economia territorial que, para ser legítima, precisa devolver valor às comunidades que o preservam.
A mesma lógica esteve presente na caminhada do Queijo Minas Artesanal até o reconhecimento da Unesco. Marcelo esteve pessoalmente, ao lado do Governo de Minas e dos produtores, na agenda internacional realizada em Paris em 2024, durante a etapa decisiva da candidatura. O reconhecimento pertence, naturalmente, aos detentores e a uma longa construção coletiva de diversas instituições. A presença de Marcelo é significativa por outra razão: ele compreendeu que proteger um patrimônio, fortalecer seus produtores, estruturar seus territórios e ampliar mercados podem integrar uma mesma política.
Uma frase sua naquele contexto talvez diga mais sobre sua concepção de liderança do que muitos discursos: “Não realizamos nada sozinhos”.
O programa Meu Negócio é Carnaval produz uma volta particularmente significativa em sua biografia. Criado no ciclo atual do Sebrae em parceria com o Governo de Minas, começou pela qualificação dos milhares de negócios e trabalhadores ligados à festa e avançou para ações de mercado e rodadas com blocos, escolas, produtores e empresas. Marcelo passou a defender uma visão em que a potência econômica do Carnaval deveria contribuir para que profissionais e organizações da festa encontrassem sustentabilidade para além dos dias de folia.
Conheci-o quando a questão era fazer Belo Horizonte aprender a receber o Carnaval que renascia nas ruas. Mais de uma década depois, voltamos a encontrar aquela festa diante de outro desafio: fazer com que sua extraordinária potência cultural também gere profissionalização, trabalho e renda para aqueles que a constroem. A festa continua sendo cultura; justamente por isso, pode também produzir economia.
Na gastronomia, Marcelo encontrou outra síntese reveladora ao dizer que Minas se reconhece à mesa. Nas rotas turísticas, no artesanato, no queijo, na cozinha e na economia criativa existe a mesma tentativa de aproximar tradição e futuro. Origem, nesse pensamento, não significa atraso, assim como internacionalização não precisa significar desenraizamento. O barro pode chegar a Paris continuando profundamente Jequitinhonha.
Há ainda uma dimensão geracional nessa trajetória que merece ser percebida. Marcelo foi formado jovem pelo associativismo e chegou à maturidade presidindo um Sebrae que ampliou fortemente sua atuação na educação empreendedora entre estudantes da rede pública. O Núcleo de Empreendedorismo Juvenil expandiu-se para centenas de escolas, levando formação a milhares de jovens. Há algo de devolução nesse movimento: parte daquilo que ele próprio recebeu como formação institucional na juventude retorna, décadas depois, como oportunidade para uma geração que começa a descobrir suas próprias possibilidades.
É essa ideia que nos devolve ao ponto de partida. A presença mineira na Paris Design Week de 2026 é resultado de mais de duas décadas de trabalho e envolve Sebrae, Governo do Estado, artesãos e suas organizações. O mérito de uma liderança, nesse caso, talvez não esteja em reivindicar para si a origem de uma obra, mas em compreender aquilo que encontrou, fortalecê-lo e fazê-lo chegar mais longe.
Há nisso uma dimensão política importante. Numa época em que tantas vezes confundimos liderança com personalismo, a sociedade civil organizada lembra que realizações duradouras dependem de instituições. Marcelo possui personalidade suficientemente forte para que o personalismo pudesse ser uma tentação. Curiosamente, sua trajetória aponta em outra direção: quase tudo o que construiu dependeu de conselhos, entidades, equipes, governos, empresários, comunidades e parceiros.
Sua intensidade é, ao mesmo tempo, potência e limite. Pode produzir divergências, sua pressa nem sempre coincide com o tempo dos outros e sua impaciência diante da burocracia às vezes torna o percurso mais áspero. Mas seria impossível compreender sua obra retirando-lhe precisamente essa inquietação. O ativista, o idealista, o articulador e o homem genioso pertencem à mesma personalidade.
Depois de tantos anos, portanto, são menos os cargos que me vêm à memória do que o movimento. Marcelo terminando uma reunião e começando outra, procurando alguém que ainda precisa ser convencido, imaginando o passo seguinte quando uma etapa mal terminou. Há pessoas que procuram nas instituições um lugar para chegar. Marcelo parece vê-las como um lugar de onde partir.
Talvez seja essa a essência de sua ética do fazer. Ele não acredita ingenuamente que instituições sejam perfeitas, nem que relações humanas sejam desprovidas de conflito. Acredita apenas — e com extraordinária persistência — que, quando pessoas se organizam em torno de algum propósito comum, é possível produzir uma realidade diferente daquela que receberam.
Quando assumiu a CDL/BH, em 2019, Marcelo prometeu trabalhar de maneira “incansável”. À época, a palavra poderia soar como parte natural de um discurso de posse. Depois de tantos anos, ganhou para mim outro significado. Talvez ele estivesse, sem perceber, oferecendo uma das melhores definições de si mesmo.
Marcelo não cansa de trabalhar pelo coletivo. Não porque desconheça o desgaste, as contradições ou os limites, mas porque parece encontrar justamente na construção comum uma razão para continuar.
E talvez seja essa, mais do que qualquer cargo que tenha ocupado, a verdadeira medida de Marcelo de Souza e Silva.