Existe uma diferença entre o idiota e o alienado. Este último é um sujeito alheio, indiferente à sua situação histórica. No caso da idiotice, existe um estandarte de glória que ele faz questão de erguer por onde passa.
O alienado ainda guarda alguma tragédia. Há nele uma espécie de inocência histórica. Não sabe por que não viu, porque não teve tempo, porque a vida lhe caiu em escombros. Mas o idiota opera por um gesto de escolha. Seu orgulho está em não precisar conhecer.
É por isso que o idiota contemporâneo não suporta a dúvida. Ele tem certeza de que encontrou um caminho mais econômico ao terceirizar o pensamento.
Há quem imagine que a sociedade de mercado precise de consumidores. Eles são consequência. O que ela precisa produzir em escala industrial é um tipo humano incapaz de sustentar o silêncio. Desses que vivem na escuridão de uma casa preenchida com fachada de led. O mercado não teme o homem pobre. Teme o homem que interrompe o circuito entre desejo e compra, entre opinião e repetição.
Nunca houve tanta informação disponível, mas o idiota moderno é esmagado por ela, abolindo qualquer hierarquia entre o importante e o irrelevante. Fantasiando uma equivalência entre Tom Jobim e qualquer dupla de Agronojo Universitário.
O idiota não quer conquistar o mundo. Quer apenas nunca mais experimentar a angústia de pensar sozinho. Daí sua agressividade. Por isso que toda idiotice é, no fundo, defensiva.
Ele não é vítima integral do sistema. Seria até elegante demais absolvê-lo. Há uma cumplicidade silenciosa. O sistema oferece a mercadoria enquanto ele oferece a alma. Eis aí um tipo de contrato entre o orgulho e a ignorância.
A receita para se fabricar um idiota contemporâneo em laboratório é simples. Basta pegar uma criança e não deixá-la entediada em hipótese alguma, pois o tédio é um dos melhores remédios contra a idiotice. Portanto, perigoso. Dele nasceram romances, sistemas filosóficos, heresias e até amores mal explicados.
Repita constantemente que um verso e um slogan ocupam o mesmo lugar ontológico. Que ouvir exige o mesmo esforço que escutar. Que toda profundidade é menos relevante que o gosto pessoal. Ensine cedo que toda exigência intelectual é uma forma de arrogância.
Se ele começar a desconfiar da própria mediocridade, aplique imediatamente mais distração e um discurso terapêutico qualquer que transforme toda inquietação em problema químico, neurocientífico, baixa autoestima, mindset ou falta de storytelling no design existencial.
Ao final de algumas décadas, o resultado aparecerá! Ele não será um monstro alienado, mas alguém perfeitamente adaptado. Trabalhará, consumirá, comentará, sorrirá nas fotografias e terá convicções firmes sobre tudo aquilo que jamais pensou.
E esse será o triunfo definitivo de nossa época: o idiota não mais como um desvio, mas modelo. Ocupará o centro, apresentará telejornal e dará palestra sobre autenticidade. O idiota, que antes causava constrangimento e falava baixo, exigirá respeito em nome do mundo. Isso porque ele não perdeu, como o alienado, apenas a capacidade de pensar. O que ele deixou foi algo mais nocivo: a vergonha de não refletir.