Dossiê contra juízes e procuradores e blitz falsa contra ex-mulher: os detalhes da nova fase da Operação Rejeito

Etapa foi deflagrada nesta quinta (18), a partir de suspeitas da existência de grupo de monitoramento ligado a Alan Cavalcante
Operação Rejeito foi deflagrada em setembro do ano passado. Foto: Polícia Federal

A deflagração da segunda fase da Operação Rejeito, nesta quinta-feira (18), foi motivada por evidências de que o grupo ligado ao empresário Alan Cavalcante estruturou um sistema privado de inteligência para produzir dossiês detalhados sobre juízes e procuradores que atuavam em processos de seu interesse.

Ainda segundo a apuração, Cavalcante tentou encomendar uma blitz policial contra sua ex‑esposa, tratada pela investigação como potencial testemunha. Esses elementos, extraídos de mensagens de celular, relatórios de investigação particular e documentos apreendidos em fases anteriores, levaram a Justiça Federal a concluir que a organização criminosa não apenas monitorava autoridades e terceiros, mas também buscava instrumentalizar agentes públicos e acessar dados sigilosos por vias clandestinas.

A decisão que embasa a operação aponta a existência de uma estrutura dedicada ao levantamento sistemático de informações sobre magistrados e membros do Ministério Público com atuação em casos ligados ao grupo de mineração investigado, incluindo os juízes federais W.K.A. e F.V..

Em etapas anteriores, a Polícia Federal já havia localizado planilhas com nomes de juízes, procuradores da República e integrantes da sociedade civil, acompanhados de dados pessoais, funções, área de atuação e observações sobre posicionamento em temas de interesse da organização. Agora, conforme a investigação, há evidências de que o monitoramento era constante.

Um dos exemplos é o do mandado de segurança cível relacionado a empreendimento minerário, inicialmente sob responsabilidade de W.K.A., que, após manifestação de suspeição, teve o processo redistribuído para o juiz federal F.V.. Assim que soube da redistribuição, Alan acionou sua esposa, Tayná Vitória Cerqueira Gouveia, pedindo que ela repetisse “o mesmo trabalho” já feito em relação a outra pessoa. Na prática, isso significava acionar as empresas de investigação contratadas pelo grupo para levantar o máximo de informações possíveis sobre o novo juiz responsável pelo caso.

As conversas recuperadas mostram que, em poucos minutos, o nome de F.V. foi pesquisado em redes sociais e encaminhado à empresa Rastrear Investigações, uma das fachadas de um mesmo núcleo empresarial de investigação privada. Em paralelo, o empresário passou a buscar o CPF do magistrado em ferramentas abertas, para, em seguida, solicitar relatório completo com “todas as informações possíveis”, com indicação de urgência. Esse encadeamento de mensagens é usado pela PF para demonstrar que o monitoramento era acionado de forma imediata sempre que uma autoridade passava a ocupar posição estratégica em processos de interesse do grupo.

Os documentos anexados à investigação mostram que os relatórios produzidos sobre o juiz F.V. ultrapassavam em muito a esfera de informações públicas. Esses dossiês trazem dados pessoais detalhados, como filiação, data de nascimento, múltiplos endereços residenciais e telefones, além de e‑mails e histórico profissional em diferentes instituições de ensino e órgãos públicos. O pacote inclui, ainda, referências à declaração de imposto de renda, informações sobre restituições, vínculos empregatícios formais, renda estimada e participações em atividades acadêmicas.

Os relatórios também reúnem informações sobre hábitos de consumo, perfil de crédito, contratos de serviços, viagens, veículos registrados e até dados de vacinação. Em alguns casos, aparecem menções a perfis em redes profissionais e a registros que indicam a atuação do magistrado como professor de cursos de graduação e pós‑graduação. O nível de detalhamento, na avaliação do juízo, indica o acesso a bases de dados restritas ou a serviços que prometem obter informações protegidas por sigilos bancário, fiscal e telefônico.

Outro aspecto destacado é a inclusão de familiares diretos e indiretos do juiz F.V. nos dossiês, com identificação de parentes, suas rendas e profissões. No caso analisado, a investigação aponta que, após a obtenção desses dados, o grupo passou a mapear primos e outros vínculos familiares, em fluxo interpretado como tentativa de abrir canais de contato indireto com o magistrado. A Justiça vê nesse movimento um uso de informações sensíveis para, em tese, avaliar possibilidades de aproximação ou exercer influência sobre o ambiente decisório, em linha com o padrão já identificado de aquisição de imóveis próximos às residências de magistradas.

Os dossiês individuais se somam a planilhas mais amplas, nas quais constam nomes de juízes federais, juízas estaduais, procuradores da República e outros atores institucionais com interface com o setor de mineração em Minas Gerais. Entre os alvos do mapeamento aparecem, por exemplo, a juíza federal responsável pela ação penal da Operação Poeira Vermelha – que passou a dividir o mesmo prédio com Alan após a compra de um apartamento – e a juíza A.C.G.M.S., titular da Vara Criminal de Sabará, apontada como vizinha do empresário em condomínio de Nova Lima.

No Ministério Público Federal, procuradores com atuação em casos de licenciamento ambiental e em ações penais decorrentes das operações anteriores também são citados nas planilhas, associados a anotações sobre perfil de atuação e decisões em processos sensíveis ao setor de mineração.

Nessas planilhas, além dos dados básicos, aparecem observações sobre a “relação com a comunidade”, histórico de decisões em temas ambientais e percepção de alinhamento ou resistência a pleitos de empreendimentos minerários. Esses documentos foram compartilhados em grupos de mensagens entre Alan e sócios e aparecem ao lado de planilhas de produção de minério e informações empresariais, o que, para os investigadores, revela o uso desses mapas de autoridades como instrumento de planejamento do negócio. A PF sustenta que o grupo buscava antecipar posicionamentos, identificar possíveis aliados e monitorar quem poderia representar risco às operações, consolidando um banco de dados paralelo sobre agentes públicos.

A decisão menciona que o mesmo padrão de levantamento de informações foi identificado em relação a outras autoridades, não apenas juízes, e que isso se deu num contexto em que Alan já respondia a ação penal e a inquéritos sobre fraudes em licenciamento ambiental. Para o colegiado, essa continuidade demonstra uma estratégia sistemática de acompanhar, de perto, a atuação de quem poderia fiscalizar, investigar ou julgar o grupo, quebrando a normalidade da relação entre particulares e o sistema de Justiça.

Blitz sob encomenda

Além dos dossiês sobre autoridades, outro eixo que sustenta a segunda fase da Rejeito é a descoberta de tratativas para contratar uma blitz policial simulada contra a ex‑esposa de Alan, M.M., apontada pela investigação como fonte de informações relevantes. Em diálogos de setembro de 2025, Tayná procura a Rastrear Investigações para perguntar se seria possível “fazer uma blitz” com foco específico em M.. O objetivo seria abordar o veículo utilizado pela ex‑esposa, em local e momento previamente combinados com a investigadora.

A resposta da interlocutora explicita a necessidade de acionar, primeiro, um policial civil “parceiro” para efetuar a abordagem inicial e, depois, chamar a Polícia Militar para reforçar a atuação, com possibilidade de reboque do carro e autuação. Nas mensagens, a empresária é informada de que o valor do serviço seria mais elevado justamente por envolver agentes públicos e o uso da estrutura oficial de fiscalização. Dias depois, o orçamento é detalhado, com valores distintos a depender se a blitz ocorreria em Belo Horizonte ou em Nova Lima, localidades ligadas à movimentação de M…

As conversas sugerem, ainda, que o veículo da ex‑esposa já estaria sendo acompanhado em tempo real, com menção a possível instalação de dispositivo de rastreamento. Esse contexto se soma a registros anteriores de monitoramento da rotina de M., ocorridos em agosto de 2025, logo depois de ela prestar depoimento à PF em investigação relacionada ao grupo. Para a Justiça, a sequência de vigilância e a posterior tentativa de montagem de blitz configuram risco concreto à integridade de testemunha e evidenciam o uso instrumental de aparatos de segurança pública para fins privados.

Ofertas para quebra de sigilo

Nos mesmos canais em que se negociava a blitz, a empresa de investigação oferecia serviços de obtenção de extratos bancários e de ligações telefônicas de terceiros ao longo de períodos determinados, mediante pagamento. As mensagens mencionam a possibilidade de acesso a extratos bancários dos últimos 30 dias, mediante valor específico, e a obtenção de registros detalhados de chamadas junto às operadoras, com indicação de outro valor. Tayná demonstra interesse nesses serviços para acompanhar a movimentação de um alvo e discute formas de “pausar” a contagem do período de monitoramento caso a pessoa viajasse.

Essas ofertas reforçam, na avaliação dos investigadores, a hipótese de que o grupo se valia de intermediários com acesso indevido a sistemas fechados e bases de dados de instituições financeiras, órgãos de segurança e empresas de telefonia. A estrutura empresarial identificada – Foco Investigações, Rastrear Investigações, Detectar Investigações e, posteriormente, Oficial Investigações – aparece como núcleo dessa rede clandestina de informações, a serviço de demandas do grupo liderado por Alan. Esse uso reiterado é um dos fundamentos para a suspensão cautelar das atividades dessas empresas.

A Justiça destaca que as tratativas sobre blitz e quebra de sigilo se deram quando o empresário já era réu em ações decorrentes de operações anteriores e respondia por embaraço à investigação e violação de sigilo funcional. Isso reforça a percepção de reiteração delitiva e de que, em liberdade, o grupo seguiria recorrendo à mesma estrutura para interferir em investigações, acessar dados protegidos e monitorar testemunhas, autoridades e procuradores da República que atuam em casos contra o conglomerado de mineração.

Na avaliação do colegiado da 3ª Vara Federal Criminal, o fato de os principais episódios descritos terem ocorrido entre agosto e setembro de 2025, e terem sido identificados a partir da análise de celulares apreendidos somente em 2026, garante contemporaneidade às medidas. A conclusão é de que, sem a adoção de prisões e buscas, haveria probabilidade de continuidade de atos de monitoramento ilegal, de tentativas de instrumentalização de agentes públicos e de interferência em processos judiciais e apurações em curso.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

Leia também:

Nova fase da Operação Rejeito mira empresário suspeito de espionagem e obstrução de investigações em MG

A aposta de Lucas Ganem para evitar cassação na Câmara de BH

Universidade federal suspende contratos com fundação citada por suposto operador de ex-secretário de Educação de MG

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse