O ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (Republicanos-MG) disse ser alvo de “perseguição política” nesta segunda-feira (13), ao reagir à decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que determinou o bloqueio de R$ 6,1 milhões de seus bens e a suspensão do pagamento das emendas parlamentares sob investigação, com base em relatório da Polícia Federal (PF).
Em entrevista a uma rádio gospel da qual é dono em Belo Horizonte, Cunha negou ter articulado o desvio de emendas parlamentares de outros deputados para beneficiá-lo. Segundo ele, as acusações passam a impressão de que ele teria se apropriado dos recursos, o que, afirma, não ocorreu.
“Estão querendo é criminalizar o diálogo político-partidário. A impressão que passa para quem lê as matérias, e é importante desmentir, é que parece que peguei o dinheiro e botei no bolso, que o dinheiro não foi para os municípios, para ser aplicado. São emendas pequenas, de R$ 100 mil para um município, de R$ 60 mil para outro, para atender a algumas necessidades básicas”, argumentou, nos microfones da Rádio Maravilha.
A decisão de Dino, tornada pública no domingo (12), aponta que o ex-deputado coordenou o desvio de pelo menos 29 emendas da Comissão de Saúde da Câmara, registradas em nome de outros parlamentares para encobrir a real origem da indicação.
As mensagens interceptadas pela PF mostram Cunha tratando os recursos como cota pessoal e disputando bases eleitorais com parlamentares em exercício, entre eles o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) e o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG).
Cunha afirmou que apenas sugeriu ao Republicanos que emendas fossem destinadas a cidades do estado e que a decisão final coube ao líder da bancada na Câmara, o deputado federal mineiro Gilberto Abramo (Republicanos).
“Em resumo, nós temos uma polícia que resolve fazer parte do processo político e essa polícia considerou irregulares as emendas parlamentares que foram destinadas a municípios de Minas Gerais, que foram por sugestões iniciais minhas”.
Ainda de acordo com ele, a ausência de mandato não retira a legitimidade do diálogo partidário nem configura irregularidade, e completou que a discussão de fundo real seria sobre o futuro das emendas parlamentares, não sobre o destino dos recursos.
“Todo mundo sabe que sou oposição. Eles não me querem lá de volta. É óbvio. Consequentemente, estão perseguindo aqueles da oposição. A Polícia Federal se transformou em uma polícia política e está perseguindo politicamente todos aqueles que são seus adversários”, completou.
Comparação com Valdemar
Pré-candidato a deputado federal pelo Republicanos de Minas Gerais, Cunha é alvo da mesma investigação que determinou o bloqueio de até R$ 119 milhões do também ex-deputado Valdemar da Costa Neto, presidente do diretório nacional do PL.
À Maravilha, o ex-presidente da Câmara se comparou ao dirigente liberal e acrescentou que a PF age de forma seletiva contra nomes da oposição, e sua tentativa de retorno à Câmara pelos votos mineiros seria o motivo real por trás da investigação.
“Como se ele fosse presidente do partido e não pudesse destinar emendas às prefeituras que pertencem ao partido dele. Essa é a realidade. É a atividade política normal, que todo mundo tem de fazer”, contestou.
O ministro rejeitou o entendimento da Procuradoria-Geral da República (PGR), contrária ao bloqueio de bens, e argumentou que o crime de peculato-desvio não exige proveito pessoal direto de Cunha. Para Dino, o uso de verba pública para construir uma base eleitoral em Minas já configura o delito.
Em pré-campanha
Cassado da Câmara dos Deputados em 2016 por ter mentido ao Conselho de Ética sobre contas bancárias secretas na Suíça, Eduardo Cunha vai tentar, neste ano, voltar ao mandato por meio dos votos dos mineiros.
Não é a primeira vez que ele tenta o retorno à Câmara. Em 2022, pelo PTB em São Paulo, obteve apenas 5.044 votos e ficou na 383ª posição entre os candidatos do estado, longe das 70 vagas disponíveis. E desde o ano passado, quando transferiu o domicílio eleitoral para Belo Horizonte, ele busca construir uma base eleitoral.
A estratégia não se limita ao anúncio de emendas e repete uma prática adotada nos anos 1990, quando Cunha usava rádios no Rio de Janeiro para falar com o público evangélico. Agora, ele montou uma rede de emissoras gospel em cidades mineiras, tornou-se patrocinador do Uberaba Sport Club e passou a marcar presença em cultos e eventos religiosos pelo interior do estado.