Pai de Vorcaro diz ao STF que filho o rejeitava, mas documentos mostram que ele teria a palavra final no banco

Segundo minutas obtidas por O Fator, Henrique Vorcaro teria poder de veto e indicaria diretores; defesa nega participação
Daniel Vorcaro (à esq.) e o pai, Henrique Vorcaro
Daniel Vorcaro (à esq.) e o pai, Henrique Vorcaro, alvos da Operação Compliance Zero, que investiga o Banco Master. Fotos: Divulgação

O empresário mineiro Henrique Vorcaro, pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, teria poder de veto sobre as principais decisões do Banco Máxima que, posteriormente, se tornou o Master, segundo documentos obtidos por O Fator.

Os papéis mostram que Henrique, preso desde maio deste ano, ficaria com metade da participação do filho no banco de forma oculta, indicaria diretores, teria acesso irrestrito às contas e daria a palavra final se o Banco Central (BC) criasse obstáculos ao negócio.

A informação contradiz a versão apresentada por ele ao Supremo Tribunal Federal (STF). Em carta enviada esta semana ao relator do caso, ministro André Mendonça, o empresário disse que o filho “não tratava nada de banco” com ele.

“Verifiquem isso com qualquer pessoa, parceiros deles em Belo Horizonte, São Paulo ou Brasília: todos sabem que eu era uma pessoa totalmente não bem-vinda no Banco ou em qualquer coisa do Daniel. Para mim era uma tristeza, sofria muito com esta rejeição”, escreveu.

Procurada pela reportagem, a defesa de Henrique também nega que ele teve alguma participação no negócio (veja o posicionamento completo no final da reportagem). Um trecho de uma minuta de contrato de 2017 discutida entre pai e filho, contudo, aponta para outro caminho.

“HENRIQUE, por meio das empresas em que detém participação, em especial pela Multipar, promoveu diversos investimentos realizando esforços no sentido de disponibilizar ativos e patrimônio para compor ativos de DANIEL e assim viabilizar a aquisição das ações do BANCO MÁXIMA”.

Poder de veto

A reportagem teve acesso a arquivos elaborados entre novembro de 2016 e dezembro de 2017, incluindo contratos de compra e venda de quotas, confissões de dívida e acordos de troca de participações, alguns em várias versões.

Os arquivos são minutas, versões de trabalho sem assinatura, confirmadas com fontes que participam das investigações. Nesse período, era negociada a compra do Banco Máxima, com sede no Rio de Janeiro e então controlado por Saul Sabbá.

Daniel Vorcaro acertou a aquisição em 2017, conseguiu o aval do BC para fechar o negócio em 2019 e rebatizou o banco como Master dois anos depois.

Nesses documentos, o Banco Máxima e a Multipar, holding da família Vorcaro fundada por Henrique, aparecem como intervenientes anuentes. E, conforme apurado pela reportagem, parte dessas minutas teria sido revisada pela família.

Os metadados dos arquivos registram alterações feitas em nome de Natália Vorcaro e Fabiano Campos Zettel, irmã e cunhado do ex-banqueiro, e de um usuário identificado pelo e-mail de Daniel no grupo Multipar.

Pelas minutas, pai e filho controlariam o banco “de forma compartilhada” e votariam “em conjunto” nas assembleias. Um documento de novembro de 2017 lista as cláusulas do que Daniel só poderia decidir com “o consentimento e ou o aconselhamento” de Henrique:

  • mudanças no estatuto social do banco;
  • emissão de novas ações, opções de compra de ações ou outros valores mobiliários;
  • fusão, incorporação, cisão ou qualquer outra operação societária, além da dissolução e liquidação do banco;
  • autorização para os administradores pedirem falência;
  • distribuição de dividendos, pagamento de juros sobre capital próprio ou retenção de lucros;
  • compra, venda, aluguel ou oferta em garantia de bens do banco;
  • aquisição de ações, debêntures, títulos de crédito ou participação em outras empresas, exceto nas operações do dia a dia do banco.

Procurada, a defesa de Henrique Vorcaro afirmou que as minutas, de cerca de dez anos atrás, registram conversas que nunca chegaram perto de se concretizar. Disse ainda que, se o poder de veto fosse real, “talvez nada disso tivesse ocorrido por agora”.

Também reafirmou que o pai de Daniel jamais foi acionista, conselheiro ou, menos ainda, gestor ou administrador do banco: “Jamais e nunca! Essa minutas, portanto, são o que são – se verdadeiras: conversa sobre intenções de negócio, que nunca chegaram perto de se concretizar” – veja a nota na íntegra ao final da matéria.

Indicações na diretoria

O poder de Henrique chegaria à gestão do dia a dia. As minutas preveem que ele indicaria um diretor, o diretor jurídico e um integrante do conselho de administração do banco. Daniel se comprometeria a nomear esses indicados e a não destituí-los.

O pai também teria acesso irrestrito às contas. Os documentos obrigariam o filho a enviar relatórios mensais ou quinzenais, “a critério e por solicitação” do mineiro, e previam reuniões a cada 30 dias para apresentar a posição financeira do banco.

O ex-dono do Master também ficaria proibido de vender ou dar em garantia suas ações do banco sem a anuência do pai. Além disso, os dividendos que coubessem a Daniel seriam divididos meio a meio com Henrique.

A última palavra

A cláusula que mais concentra poder trata do Banco Central. As minutas preveem que, se o órgão impusesse “qualquer entrave, condição ou exigência” no quadro de acionistas da instituição financeira, caberia a Henrique decidir o que fazer com as ações.

As opções incluíam vender as ações, cedê-las a terceiros, renegociar com o filho ou montar uma sociedade em conta de participação, estrutura que garantiria a Henrique os dividendos e o dinheiro de uma eventual venda sem que ele aparecesse como acionista.

“Submeter para aprovação prévia de Henrique todas as deliberações relacionadas à gestão do BANCO MÁXIMA, que definirá em conjunto com DANIEL o voto que será dado perante qualquer reunião ou assembleia”, diz uma das cláusulas.

O dinheiro do pai

Os documentos apontam que a origem desse poder era financeiro, uma vez que o dinheiro para a compra do banco e quitação das dívidas de Daniel Vorcaro teria saído da holding familiar Multipar Empreendimentos e Participações.

Sediada em Belo Horizonte, a empresa controla negócios dos setores imobiliário e de investimentos. Até 2016, Daniel era sócio da holding, ao lado do pai e da mãe, Aline. E, conforme apurado por O Fator, o interesse do grupo pelo Máxima era antigo.

Em uma minuta de dezembro de 2017, é relatado que Multipar havia firmado, ainda em julho de 2015, um contrato para compra de ações do banco por meio do Fundo Esmeralda, que continuava vigente à época.

Ao tratar da aquisição posteriormente, segundo os documentos, a família Vorcaro teria concluído que a compra teria “melhor aceitação” pelo Banco Central se fosse feita por uma pessoa física.

Daniel conduziria o negócio de forma ostensiva e com “grande volume de recursos financeiros e ativos” da holding. As minutas detalham dois desses repasses previstos no acordo familiar:

  • Ao deixar a Multipar, Daniel teria recebido R$ 26 milhões em lucros distribuídos só para ele.
  • A Milo Investimentos, empresa do grupo, teria transferido a ele um crédito de R$ 23,7 milhões que tinha a receber de Saul Sabbá, o dono do Máxima.

Outra empresa do grupo que aparece nas negociações como anuente da holding é a SPE Cesto Incorporadora, responsável por um hotel no centro de Belo Horizonte prometido para a Copa de 2014, mas nunca concluído. O empreendimento recebeu recursos de fundos de pensão de servidores.

Dívida com o pai

Tanto os R$ 26 milhões quanto o crédito da Milo teriam virado passivos do filho, a serem quitados com ações do banco. Se Daniel não pagasse, uma das confissões de dívida daria a Henrique o “direito imediato” de exigir a transferência dos papéis para o seu nome.

O acordo final seria uma troca. “Como parte do Plano de Negócios, foi acordado entre as Partes que HENRIQUE passaria a deter participação, direta ou indireta, de 50% (cinquenta por cento) no BANCO MÁXIMA assim que consolidada a Aquisição”, diz uma minuta de novembro de 2017.

O percentual se referia à metade das ações do ex-banqueiro. Em troca, o filho receberia 30% da Multipar. Na versão de dezembro de 2017, que descreve Daniel como dono de 93% do banco, Henrique ficaria com 46,5% do Máxima, e o filho, com 40% da Multipar.

Operação ‘Serasa’

Em outro documento, é previsto que ele daria a Henrique quitação antecipada dos R$ 20 milhões que deveria receber pela venda. As minutas também revelam um suposto plano para quitar mais de R$ 150 milhões em dívidas do ex-banqueiro com terceiros.

Um dos arquivos registra que “foram efetivamente realizadas diversas medidas que geraram a preservação e saneamento do patrimônio e histórico econômico-financeiro” de Daniel “garantindo sua elegibilidade para, como representante do GRUPO MULTIPAR, se tornar titular de ações de instituição financeira no Brasil”.

Autorização do BC

Daniel acertou a compra do controle do Máxima com Saul Sabbá em 2017. Pelo acordo, ele pagaria R$ 40 milhões por 56,87% do capital do banco e se comprometia a injetar mais de R$ 75 milhões na instituição.

A primeira tentativa de aprovar o negócio no Banco Central, em fevereiro de 2019, fracassou. O relator do caso, Sidnei Corrêa Marques, entendeu que não estavam comprovadas “a origem dos recursos utilizados na operação” nem “a capacidade econômico-financeira” dos compradores.

Segundo reportagem do jornal Valor Econômico, os técnicos do BC suspeitavam de “circularização” de recursos, ou seja, de que o próprio Máxima estivesse financiando a sua compra.

Para comprovar a origem do dinheiro, Daniel teria apresentado distribuições de lucros da Viking Participações, empresa dele, além de imóveis e cotas de fundos de investimento. Oito meses depois, em outubro, já sob nova gestão do BC, o pedido foi aprovado.

Em nome de Deus

A carta protocolada nesta semana no STF é a quarta que Henrique Vorcaro endereça ao ministro André Mendonça desde que foi preso, em maio, no âmbito da Operação Compliance Zero, que investiga irregularidades nas transações do Banco Master.

Segundo a PF, ele seria o mandante e o operador financeiro de um grupo conhecido como “A Turma”, que, de acordo com a investigação, intimidava desafetos de Daniel Vorcaro, como jornalistas, e monitorava ilegalmente adversários.

A operação apura crimes como organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção, ameaça, violação de sigilo funcional e invasão de dispositivos informáticos. A prisão, inicialmente temporária, foi convertida em preventiva sob o argumento de risco de continuidade das condutas, de interferência nas investigações e de dissipação de patrimônio.

Ele está detido na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte. No texto, afirmou ter ficado “tranquilo” ao saber que Mendonça seria o relator, por considerá-lo “um homem de Deus”.

“Sr. Ministro, quando fui preso estando o Sr. como relator, fiquei tranquilo pois imaginei que iria enxergar a verdade e ficaria no máximo duas semanas. Imaginei que um homem de Deus não iria permitir essa injustiça. Erraram demais comigo”.

Sobre o filho, disse que os dois têm uma boa relação. “Com o sucesso da venda que eu fiz para a Hapvida, das empresas que eu apresentei ao Banco e fundos, com o lucro que deu ao Banco, ele pelo menos passou a me respeitar mais”, escreveu.

Henrique cita 47 anos de trabalho e faz uma aposta com os ministros. “Faço um compromisso com os Srs. de que se tiver uma mentira no que estou falando, das questões que foram alvo da minha prisão, os Srs. podem me prender novamente para o resto da vida”.

Na carta, ele relata a rotina na penitenciária e diz ter tido crises de diverticulite, picos de pressão e duas internações. Afirma estar “à base de remédios” e conta que, em 43 anos de casamento, nunca havia passado mais de cinco dias longe da esposa, que está doente.

Veja na íntegra o que diz a defesa de Henrique Vorcaro:

“Ainda que essas minutas (que não são documentos) tenham partido das pessoas ali referidas, o que não podemos afirmar, elas se reportam a uma realidade de quase 10 anos atrás!

Toda a imprensa sabe; todos que acompanham os fatos notórios sob investigação, sabem muito bem que Henrique jamais foi acionista, conselheiro, e muitíssimo menos, gestor ou administrador desse banco. Jamais e nunca!

Essa minutas, portanto, são o que são – se verdadeiras: conversa sobre intenções de negócio, que nunca chegaram perto de se concretizar.

Quem dera fosse verdade esse tal “poder de veto” suposto há quase 10 anos, antes da existência do Master. Talvez nada disso tivesse ocorrido por agora.

Em suma: como o Master e Daniel estão sob holofotes, até a matrícula em academia de ginástica levanta suspeitas.

Mentiras, nem quando sinceras, não interessam!”

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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