Quando decidi trocar uma carreira no mercado privado pela política, fui de peito aberto. Coração aberto também. Talvez até aberto demais, como quase todo mundo que entra nesse mercado acreditando que encontrará apenas ideias, estratégia, criatividade e alguma vontade de transformar o mundo.
Encontrei tudo isso.
Mas encontrei outras coisas também.
A campanha política é uma experiência difícil de explicar para quem nunca esteve dentro de uma. O tempo corre de outro jeito. Um mês parece um ano. Uma semana pode mudar uma vida. Em poucas horas, você precisa entender um problema, construir uma solução, convencer uma equipe, enfrentar resistências, produzir uma resposta e colocá-la na rua.
Na campanha, o improviso precisa parecer método. E o método, muitas vezes, precisa aprender a conviver com o caos.
É um mercado em que se aprende muito em pouquíssimo tempo. Uma espécie de MBA que te pagam para fazer — embora, em algumas madrugadas, você desconfie que está pagando caro por ele.
Você aprende sobre comunicação, comportamento, pesquisa, território, linguagem, televisão, redes, crise, poder e gente. Principalmente gente. Aprende que uma frase tecnicamente perfeita pode não tocar ninguém. E que uma senhora, sentada no fundo de uma sala de pesquisa, pode explicar o espírito de uma eleição com uma frase que nenhum especialista conseguiu formular.
Aprende que o eleitor não cabe numa planilha.
Que uma cidade não é apenas um conjunto de dados.
Que uma campanha não vende um candidato como se vende um refrigerante, um banco ou um aplicativo. Política trabalha com elementos muito mais profundos: identidade, esperança, raiva, pertencimento, medo, memória e futuro.
Uma campanha mexe com aquilo que as pessoas acreditam que são — e com aquilo que ainda sonham ser.
Talvez por isso seja um mercado tão fascinante.
E tão perigoso.
Porque onde existe poder, existe vaidade. Onde existe vaidade, existe disputa. E onde existe disputa, cedo ou tarde aparece alguém confundindo o sucesso do projeto com o próprio sucesso.
A política tem sempre duas campanhas acontecendo ao mesmo tempo: a campanha do candidato e a campanha dos profissionais tentando provar que são indispensáveis.
É muita vaidade. Muito achismo vestido de convicção. Muita opinião apresentada como ciência. Muita política e, evidentemente, muita politicagem. Há reuniões em que todos querem falar. Poucas em que alguém realmente deseja ouvir.
Há quem transforme uma impressão em diagnóstico, um palpite em estratégia e um vídeo que performou bem numa teoria geral sobre o eleitorado brasileiro.
Também há uma enorme capacidade de fabricar títulos.
Em pouco tempo, todo mundo virou estrategista. Todo mundo virou consultor. Todo mundo virou marqueteiro.
O mercado político, algumas vezes, concede cargos com uma velocidade muito maior do que consegue formar profissionais.
E é justamente por isso que admiro os jovens que se expõem, assumem campanhas, tomam decisões e colocam o próprio nome em jogo. É preciso coragem para ocupar aquela cadeira. Quando uma campanha vence, muita gente aparece para contar a história. Quando perde, quase sempre procuram um nome para carregar a culpa.
Ser marqueteiro é aceitar que, em alguns momentos, a campanha inteira caberá dentro da sua cabeça — e que, ainda assim, você não terá o direito de perder a calma.
Mas existe uma palavra da qual não consigo abrir mão: processo.
O problema nunca foi ser jovem.
O problema é acreditar que a juventude dispensa a travessia.
Existe uma etapa fundamental na formação de qualquer profissional de campanha: passar pelas mãos dos que vieram antes. Ouvir, observar, discordar, aprender, sofrer e compreender a dor e a delícia desse ofício.
Não se trata de ajoelhar diante dos antigos. Nem de transformar experiência em dogma. Há marqueteiros veteranos que compreenderam profundamente o século passado e ainda não perceberam que ele terminou. O tempo de carreira, sozinho, não produz grandeza. Às vezes, produz apenas repetição.
Mas existe uma sabedoria que não se encontra em livros, cursos ou apresentações.
Ela está na memória de quem já viu uma eleição escapar nos últimos dias. De quem já precisou refazer um programa inteiro durante a madrugada. De quem já entrou numa sala acreditando numa tese e saiu dela destruído por uma frase de um eleitor. De quem já viu uma grande ideia morrer porque chegou cedo demais, tarde demais ou simplesmente porque não era tão grande quanto parecia.
Passar pelos antigos é também aprender com os erros deles.
É observar como se lê uma sala. Como se suporta uma crise. Como se protege um candidato de si mesmo. Como se reconhece uma mudança de humor antes que ela apareça nas pesquisas. Como se percebe que a campanha perdeu o rumo quando todos ainda comemoram os números.
Processo não é culto à hierarquia.
É proteção contra a arrogância.
Todo mundo quer participar da reunião em que nasce o slogan. Poucos querem passar horas ouvindo grupos de pesquisa, transcrevendo entrevistas, conferindo números, revisando roteiro, acompanhando edição, discutindo uma palavra ou tentando entender por que uma cena não provoca emoção.
Todo mundo quer comandar a guerra. Poucos querem aprender a limpar o campo.
Mas o ofício está justamente nessas coisas.
Ser marqueteiro não é ter uma boa frase na reunião. É saber se aquela frase sobreviverá à rua.
Não é fazer o vídeo que emociona a própria equipe. É entender se ele encontrará alguma emoção fora dela.
Não é parecer inteligente diante do candidato. É ajudá-lo a compreender aquilo que, sozinho, talvez não consiga enxergar.
Não é vencer todas as discussões. É evitar que a campanha perca a eleição.
O grande marqueteiro não é necessariamente quem mais fala. É quem consegue organizar o barulho. Não é o dono da verdade. É alguém capaz de encontrar uma direção quando existem muitas verdades disputando espaço.
Campanha é uma obra coletiva, ainda que a vaidade tente reescrever os créditos.
Há o pesquisador que identificou a ferida. O redator que encontrou a palavra. O diretor que construiu o olhar. O editor que descobriu o silêncio certo. O produtor que tornou possível o que parecia impossível. A equipe de rua que percebeu antes de todos que alguma coisa havia mudado.
E há o candidato, com seus limites, desejos, contradições e medos.
O marqueteiro não é o sol em torno do qual tudo gira. Talvez seja mais parecido com alguém que tenta organizar as órbitas sem deixar que os planetas colidam.
Por isso, uma campanha também exige humildade. Uma humildade estranha, porque precisa conviver com a autoridade de decidir.
É preciso ter convicção sem se apaixonar por ela.
Defender uma ideia sem se tornar refém dela.
Saber insistir e saber abandonar.
Ouvir a pesquisa sem obedecê-la cegamente.
Respeitar o eleitor sem idealizá-lo.
Proteger o candidato sem infantilizá-lo.
E, sobretudo, entender que inteligência política não é a capacidade de prever tudo. É a capacidade de perceber rapidamente quando você estava errado.
A política pune a soberba com uma eficiência impressionante.
Talvez esse seja um dos maiores aprendizados desse mercado: nenhuma experiência é suficiente para eliminar a dúvida. E nenhuma juventude é brilhante o bastante para tornar desnecessária a experiência.
Os antigos precisam aprender o mundo novo.
Os jovens precisam compreender que o mundo não começou com eles.
É desse encontro — entre memória e inquietação, repertório e coragem, método e invenção — que podem nascer as melhores campanhas.
Não acredito que alguém precise esperar envelhecer para ocupar espaços. Mas acredito que todos precisam viver o caminho. Precisam conhecer o bastidor antes de se apaixonar pelo palco. Precisam carregar algumas caixas antes de querer escolher onde ficará a luz.
Porque a campanha não perdoa atalhos.
Antes de querer escrever a frase que mudará uma eleição, é preciso aprender a ouvir a frase mal formulada de um eleitor.
Antes de comandar uma sala, é preciso aprender a permanecer em silêncio dentro dela.
Antes de querer ser o nome da campanha, é preciso ajudar a campanha a encontrar o próprio nome.
O título pode vir rapidamente.
O ofício demora.
E talvez a diferença entre um profissional que apenas participa de campanhas e um verdadeiro marqueteiro esteja justamente aí: na quantidade de coisas que ele precisou viver, ouvir, perder, suportar e compreender antes de acreditar que estava pronto.
Porque, no fim, ninguém está completamente pronto.
Mas há quem tenha atravessado o caminho.
E há quem tenha apenas chegado à cadeira.