Lira Marques e Frei Chico: a memória viva do Jequitinhonha

A artista Lira Marques.
Essa talvez seja uma das maiores lições de Lira Marques (em destaque) e Frei Chico: a materialidade e a imaterialidade não se opõem; elas se completam. Foto: Lori Figueiró

Em uma tarde ensolarada, no quintal do Museu de Araçuaí, durante uma experiência de turismo cultural, Lira Marques contou a um grupo de visitantes sua biografia, sua arte e sua história com Frei Chico. Ali, sem solenidade, o Vale do Jequitinhonha se apresentava por meio de uma de suas mestras. Não como lembrança distante, nem como expressão congelada no tempo, mas como cultura viva, complexa e contemporânea: barro, canto, memória, fé, trabalho, terra e permanência.

Há histórias que chegam pelos livros, pelos catálogos, pelas exposições e pelos registros oficiais. Outras chegam pela voz. A de Lira veio assim: pela fala mansa, pela memória acesa, pelo modo simples e profundo de quem não separa vida e criação. Ao narrar sua trajetória, revelava também a de Frei Chico, porque há biografias que, sem perderem sua singularidade, se encontram em uma mesma missão: escutar, registrar e preservar a cultura de um povo.

Araçuaí é mais que cenário nessa história. É matriz. É o chão onde a vida e a obra de Lira se enraízam e onde Frei Chico encontrou uma das grandes razões de sua existência. A cidade aparece nos quintais, nas vizinhas, nas lavadeiras, na mãe, na avó, nas cantigas, nas rezas, nos ofícios, nos barros, nas festas, nos mercados e nos modos de lembrar.

Toda vez que se chega ao Jequitinhonha, há a impressão de que o tempo ali obedece a outra dimensão. Não um tempo parado, mas um tempo mais fundo, em que o passado continua conversando com o presente. Os mercados parecem guardar a vida inteira: os encontros, as falas, os produtos da terra, os gestos de troca, a comida, o barro, os cheiros, as vozes. As lavadeiras, as ceramistas, os cantadores, as rezadeiras, os artesãos e os mestres populares formam uma paisagem humana de rara densidade. É nesse mundo que Lira se forma e é esse mundo que Frei Chico aprende a escutar.

Lira Marques nasceu em Araçuaí, em 1945, e se formou nesse universo. Sua primeira escola foi a vida: a convivência com as mulheres da comunidade, a escuta das cantigas, a observação dos gestos, a intimidade com o barro, a fé popular e a oralidade do Jequitinhonha. Antes de qualquer reconhecimento externo, Lira já era formada por uma cultura de enorme profundidade.

Seu primeiro grande território artístico foi o barro. Em suas mãos, ele ganhava corpo, figura, expressão, bicho, máscara, presépio, presença. Como tantas mulheres do Vale, Lira não lidava com o barro como matéria morta. O barro era vivo. Era chão, memória e promessa. Era a terra entrando em forma.

Frei Chico, Franciscus Henricus van der Poel, nasceu na Holanda, em 1940, ingressou na vida franciscana em 1960 e chegou ao Brasil ainda jovem. Veio de outra língua, outra paisagem, outra história. Ao encontrar o Jequitinhonha, não se colocou acima daquela cultura. Soube escutar. Deixou-se transformar pelo Vale. Fez da pesquisa uma forma de convivência, da fé uma forma de presença e da documentação uma forma de cuidado.

Há algo profundamente poético no encontro entre os dois. De um lado, o europeu que se deixou deslocar por outra forma de mundo. De outro, uma mulher do Jequitinhonha, filha daquela terra, formada pelo barro, pelas cantigas, pelas mulheres e pela vida comunitária. Nesse encontro havia uma síntese da própria formação de Minas: povos originários, presença negra, mestiçagens, religiosidade popular e herança europeia — ali não como domínio, mas como escuta.

Frei Chico teve papel decisivo na vida de Lira. Ele reconheceu nela uma artista rara, conduziu processos, incentivou caminhos e ajudou Lira a compreender a força criadora que já existia em si. Mas é preciso dizer com cuidado: Frei Chico não criou Lira. Ele abriu caminhos; Lira caminhou com a terra nas mãos. Ele ofereceu instrumentos; ela fez deles linguagem. Ele estimulou a escuta; ela transformou escuta em obra.

Um dos momentos mais importantes dessa descoberta aconteceu quando Lira já não pôde cuidar do barro como antes. O corpo impôs limite. Aquilo que poderia ter sido interrupção tornou-se passagem. Frei Chico a incentivou a desenhar. E Lira, em vez de abandonar o barro, levou o barro para o papel.

O barro, que antes era volume, tornou-se cor. A terra, que antes era modelada pelas mãos, passou a aparecer como pigmento, linha, mancha e aparição. Ao longo dos anos, Lira reuniu mais de 300 pigmentos naturais, formando uma espécie de arquivo mineral do Vale do Jequitinhonha. Não são apenas cores: são caminhos, barrancos, pedras, encostas, poeiras, margens, terras claras, vermelhas, ocres e escuras. Cada tom guarda uma memória do chão.

Essa foi uma de suas grandes entregas artísticas: transformar o território em paleta, o chão em linguagem, a paisagem em matéria pictórica. Lira não pinta a terra de fora. Ela pinta com a terra. Por isso, sua obra não representa o Jequitinhonha como tema distante; ela nasce do próprio território.

Havia, no modo como Lira contou sua história naquela tarde, uma sensação que atravessava sua fala: o medo delicado de não compreender inteiramente a arte que fazia. Ela fazia. Trabalhava no barro, depois desenhava, depois pintava com a terra. Mas a consciência plena daquilo que realizava foi se formando aos poucos. Frei Chico teve aí uma importância essencial: não lhe impôs uma interpretação, mas ajudou-a a descobrir por si mesma a força do que criava.

É significativo que Lira tenha citado o jornal Estado de Minas e Walter Sebastião. A crítica de arte, quando generosa e rigorosa, não substitui a obra, mas ajuda a revelá-la em sua complexidade. Talvez essa seja uma das faltas de nosso tempo: críticos capazes de olhar para obras nascidas fora dos grandes centros sem reduzi-las a categorias menores ou a curiosidades regionais. Lira precisava ser vista como artista. E foi isso que a crítica sensível ajudou a afirmar.

Mas a grandeza dessa história ultrapassa a obra visual de Lira. O encontro entre ela e Frei Chico produziu algo essencial para Minas Gerais: a catalogação, o registro e a preservação de um vasto patrimônio cultural imaterial do Vale do Jequitinhonha. Cantigas, rezas, festas, ofícios, oralidades, modos de fazer, práticas devocionais, memórias de lavadeiras, saberes do barro, cantos de trabalho, narrativas e formas comunitárias de vida foram sendo recolhidos, escutados, anotados, gravados e compreendidos como patrimônio.

Como contou naquela tarde, Frei Chico lhe deu um gravadorzinho. Com ele, Lira passou a visitar casas de vizinhas, lavadeiras, da mãe, da avó e de outras mulheres da comunidade. Gravava cantigas, rezas, músicas antigas, modos de cantar e de lembrar. Depois, esse material era anotado, transcrito e organizado.

O que começou nas vozes próximas foi se expandindo. Das vizinhas às lavadeiras, das mulheres da família às comunidades, das cantigas conhecidas às expressões de um povo inteiro, Lira ajudou a formar um acervo de oralidade que hoje permite compreender a imaterialidade cultural do Jequitinhonha. Ao longo dessa pesquisa, reuniu mais de 200 horas de registros musicais. Com aquele pequeno gravador, recolheu vozes que poderiam desaparecer na passagem silenciosa do tempo.

Essa entrega é imensa. Lira e Frei Chico ajudaram a preservar parte fundamental do patrimônio imaterial do Vale. Mostraram que um povo não se guarda apenas em documentos oficiais. Guarda-se também na voz das mulheres, nas músicas aprendidas em casa, nas rezas, nas festas, nos modos de cantar, nos ofícios e nas lembranças repetidas de geração em geração. Ao recolher essas cantigas, preservaram não apenas sons, mas formas de vida.

Daí a importância dos Trovadores do Vale. O canto, nessa trajetória, não é ornamento. É estrutura. A música tradicional do Jequitinhonha aparece como forma de arte, pesquisa e pertencimento. Lira canta porque escuta. Frei Chico registra porque reconhece. Ambos compreenderam que aquela cultura coletiva, antiga e poderosa, transmitida por tantas vozes antes deles, precisava encontrar permanência.

Esse patrimônio cultural imaterial catalogado pelos dois é fundamental para a compreensão de Minas Gerais. Porque Minas não se explica apenas pelo ouro, pelo barroco, pelas cidades históricas, pelas igrejas, pelas montanhas ou pelos monumentos consagrados. Minas também se explica pelo Jequitinhonha: por suas cantigas, seus barros, suas lavadeiras, suas rezadeiras, seus mercados, suas festas, seus ofícios, suas ceramistas, seus cantadores, suas oralidades e sua capacidade de transformar vida, trabalho, fé e terra em beleza.

Frei Chico compreendeu isso com rara profundidade. Ao se debruçar sobre a religiosidade popular, os cantos, os manuscritos, os objetos, as oralidades, os ofícios e os saberes tradicionais, percebeu que a cultura do Vale não era resíduo de um passado menor. Era conhecimento. Era sistema simbólico. Era filosofia encarnada em prática cotidiana. Sua obra intelectual, especialmente o Dicionário da Religiosidade Popular, confirma essa dedicação. Mas talvez sua maior obra esteja também na escuta acumulada, nos registros de campo, nos manuscritos, nos objetos, nas gravações e nas vozes que ajudou a preservar.

A obra visual de Lira também parece sonora. Seus bichos parecem sair de cantigas. Suas cores parecem carregar rezas. Suas figuras parecem reunir sonho, fé, medo, humor, infância e delicadeza. Nos desenhos e pinturas feitos com pigmentos naturais, especialmente nos chamados bichos do sertão, aparecem figuras híbridas, animais imaginários, formas que lembram pássaros, peixes, lagartos, insetos e criaturas de sonho. Não são ilustrações de fauna. São aparições.

Há algo quase rupestre nesses desenhos, não como imitação do passado, mas como força inaugural da imagem. Lira desenha como quem registra uma presença. Seus bichos conversam, de alguma maneira, com os bichos antigos das cavernas, com os grafismos ancestrais, com as imagens primeiras feitas por mãos que também buscavam compreender a vida, o medo, o sagrado, a natureza e o invisível. Em Lira, a ancestralidade não é tema decorativo. É sensação de tempo longo.

O Museu de Araçuaí nasce dessa confluência. Mais do que um espaço de guarda, é uma interpretação do Vale do Jequitinhonha. Ali, objetos, documentos, instrumentos, imagens, registros, cantigas, ofícios, costumes e modos de vida não aparecem como peças isoladas, mas como partes de uma mesma cultura viva. O museu revela Araçuaí e o Vale por dentro: pela religiosidade popular, pelos saberes da terra, pela arte do barro, pelas oralidades, pelas festas, pelos mercados, pelas lavadeiras, pelos mestres e mestras que sustentam a memória do território.

Essa talvez seja uma das maiores lições de Lira Marques e Frei Chico: a materialidade e a imaterialidade não se opõem; elas se completam. Não há canto sem corpo, sem voz, sem comunidade, mas também não há preservação plena sem gravação, anotação, transcrição, objeto, documento, instrumento, fotografia, acervo. Não há barro apenas como peça, nem apenas como saber: há a mão que molda, a terra que dá matéria, a técnica transmitida, o objeto produzido e a memória que o acompanha.

Lira e Frei Chico implantaram, em Araçuaí, um método de escuta e preservação. Mostraram que o patrimônio cultural não deve ser separado entre coisa e vida, objeto e gesto, documento e oralidade. O verdadeiro patrimônio nasce justamente da relação entre essas dimensões. A peça guarda o gesto. A gravação guarda a voz. O manuscrito guarda a pesquisa. O museu guarda o território. E a cultura permanece viva quando esses elementos continuam dialogando com a comunidade que lhes deu origem.

A trajetória de Lira também chegou a galerias, museus e instituições de arte sem que isso significasse afastamento de sua origem. Sua primeira exposição aconteceu em 1975, no Sesc Pompeia, em São Paulo. Depois, sua obra circulou no Brasil e no exterior. Mais recentemente, exposições como Meus Bichos do Sertão, na AM Galeria, em Belo Horizonte, ajudaram a apresentar a potência de seus desenhos e pinturas feitos com pigmentos naturais. Em São Paulo, sua obra ganhou novo alcance na Bergamin & Gomide, hoje Gomide&Co, e, de modo especial, no Instituto Tomie Ohtake, com a mostra Roda dos Bichos, realizada em 2024.

Essas exposições não inventaram Lira. Ela já existia inteira em Araçuaí, no barro, no canto, no quintal, no museu e na memória popular. Mas ajudaram o Brasil a vê-la com a grandeza que sua obra exige: não como curiosidade regional, não como expressão periférica, mas como uma artista brasileira de linguagem singular, capaz de ligar território, ancestralidade, matéria e imaginação.

Essa contribuição foi imensa também para a própria cultura do Jequitinhonha. Ao escutar, registrar, organizar e revelar seus cantos, ofícios, barros, rezas, objetos, mercados, modos de vida e relações com a terra, Lira Marques e Frei Chico ajudaram a afirmar a singularidade de uma cultura que possui conformações próprias de existência. No Vale, a terra não é apenas chão. É matéria, cor, sustento, memória, linguagem, espiritualidade e destino.

Poucos territórios expressam com tanta força essa ligação entre cultura e terra. Do barro que vira escultura aos pigmentos que viram pintura, das lavadeiras que cantam às ceramistas que moldam, das rezas que atravessam gerações aos ofícios transmitidos no corpo, o Jequitinhonha construiu uma forma de estar no mundo profundamente genuína. Uma cultura de raiz comunitária, nascida da vida e do trabalho, mas de alcance universal.

E talvez esteja aí uma de suas maiores grandezas: aquilo que nasceu dos quintais, das comunidades, das mãos das mulheres, das margens dos rios, dos mercados, das casas simples e da memória oral chegou aos museus, às galerias, às universidades e aos centros de pensamento sem deixar de pertencer ao povo que o criou. O valor dessa cultura não veio de fora. O reconhecimento externo apenas confirmou uma grandeza que já estava ali.

A experiência de Lira e Frei Chico ensina algo decisivo para a preservação do patrimônio cultural: não se inventaria um bem apenas olhando para o objeto. É preciso compreender a vida que o produziu. Um pote de barro não é apenas um pote. Uma cantiga não é apenas uma melodia. Uma reza não é apenas uma fórmula religiosa. Um instrumento, uma fotografia, um manuscrito, uma máscara, uma peça artesanal ou uma gravação só revelam seu valor quando compreendidos dentro do território, da comunidade, do gesto, da memória e do modo de vida que lhes dão sentido.

Nesse aspecto, Lira e Frei Chico formam uma escola para Minas e para o mundo. Uma escola de escuta, pesquisa de campo, respeito ao saber tradicional e inventariação sensível dos bens materiais e imateriais. Eles mostram que o patrimônio não deve ser tratado como coisa isolada, mas como relação: entre objeto e voz, entre barro e mão, entre canto e comunidade, entre fé e cotidiano, entre documento e vida.

Em um território de muitos artistas e muitos corações criadores, Lira e Frei Chico ocupam lugares singulares. O Vale do Jequitinhonha é um celeiro de mestras, mestres, ceramistas, cantadores, bordadeiras, violeiros, poetas, artesãos, lavadeiras, rezadeiras e guardiões de memória. Seria injusto reduzir o Vale a dois nomes. Mas também seria injusto não reconhecer que esses dois nomes ajudaram Minas e o Brasil a enxergar melhor a profundidade dessa terra.

Precisamos aprender com Frei Chico e Lira Marques que preservar o patrimônio material e imaterial é cuidar da nossa pertença. É reconhecer que a cultura não vive apenas nos monumentos, nos documentos ou nos objetos, mas também nos gestos, nas vozes, nas cantigas, nas rezas, nos ofícios, nos modos de fazer e nas relações profundas de um povo com sua terra.

Preservar é cuidar da cultura viva. É garantir que aquilo que recebemos de muitas gerações não se perca no silêncio do tempo. É compreender que um acervo, uma cantiga, um pote de barro, um manuscrito, uma fotografia, um mercado, uma reza ou a memória de uma lavadeira não são apenas registros do passado. São formas de pertencimento. São maneiras de dizer quem fomos, quem somos e quem ainda podemos ser.

Ao cuidar dessa memória, a cultura mineira reconhece uma de suas matrizes mais profundas. Porque o Jequitinhonha, com sua relação única com a terra, seus mercados, suas lavadeiras, suas ceramistas, seus cantadores, suas rezadeiras e seus mestres, não é margem de nossa história. Quando a arte e a escuta se encontram, o patrimônio deixa de ser passado e estabelece uma forma de futuro.

Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais. Arquiteto e Urbanista. Especialista em História da Arte. Mestre em Restauração do Patrimônio Arquitetônico e Urbano na Universidade de Alcalá de Henares, Espanha e RAE, Roma. É PhD em Teoria da Arquitetura pela Universidade de Valladolid, Espanha. É professor da PUC Minas.

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