Racismo ambiental no Brasil: a pauta que a COP 30 não pode ignorar

Foto: Agência Brasil

O Brasil se prepara para sediar a COP30 em 2025, um momento importante para reafirmar seu papel de liderança nas discussões sobre mudanças climáticas. No entanto, para que esse encontro tenha impacto real e duradouro, é indispensável reconhecer uma dimensão frequentemente negligenciada no debate ambiental: o racismo ambiental. Trata-se da exposição desproporcional de populações negras, indígenas, quilombolas e de baixa renda a riscos ambientais, como enchentes, deslizamentos, contaminações e escassez de água e infraestrutura básica. Essa desigualdade não é fruto do acaso, mas de um processo histórico de exclusão social e territorial, que empurrou essas populações para as áreas mais vulneráveis.

Tragédias recentes no Brasil ilustram bem essa realidade. Enchentes no Rio Grande do Sul, deslizamentos em Petrópolis, o rompimento de barragens em Brumadinho e Mariana, a seca no Semiárido e o avanço do garimpo em terras indígenas revelam um padrão que se repete: os mais atingidos são, quase sempre, os que vivem em regiões marginalizadas, onde o Estado chega pouco ou chega tarde. São comunidades com baixa cobertura de saneamento, infraestrutura precária, moradias instáveis e limitada capacidade de resposta a eventos climáticos extremos. Quando cruzamos esses dados com informações do IBGE, IPEA e MapBiomas, percebemos com clareza que pretos, pardos, indígenas e quilombolas estão entre os que mais residem em áreas de risco e com menor acesso a serviços públicos essenciais. Portanto, embora os efeitos da crise climática sejam globais, eles não são distribuídos de forma equitativa. No Brasil, afetam com mais intensidade quem já enfrenta desigualdades estruturais.

Esse fenômeno não é exclusivo do nosso país. Em outras partes do mundo, estudos e eventos também evidenciam a conexão entre desigualdade racial e impacto ambiental. Nos Estados Unidos, o furacão Katrina, em 2005, escancarou como comunidades afro-americanas em Nova Orleans foram as mais afetadas e tiveram menor acesso à ajuda emergencial. Estudos da Universidade de Michigan e do NAACP mostraram que bairros negros nos EUA têm maior probabilidade de estar próximos a indústrias poluentes e depósitos de resíduos tóxicos. No Reino Unido, a Comissão de Igualdade e Direitos Humanos identificou que crianças negras e asiáticas estão mais expostas à poluição do ar em centros urbanos. Já na África do Sul, relatórios da ONU apontam que os assentamentos urbanos ocupados majoritariamente por negros — herança do apartheid — enfrentam os maiores desafios em relação à escassez hídrica, descarte de lixo e acesso a saneamento.

O Brasil tem, portanto, a oportunidade e a responsabilidade de pautar esse debate com seriedade. A inclusão do racismo ambiental como tema transversal na COP30 é não apenas legítima, mas necessária. Ignorar essa dimensão compromete a efetividade das políticas climáticas, uma vez que as soluções generalistas tendem a perpetuar as desigualdades existentes. É fundamental que o país proponha medidas concretas, com base em evidências e focadas em justiça social. Um passo importante seria a criação de um Plano Nacional de Justiça Climática com recorte racial e territorial. Esse plano precisa prever ações específicas de mitigação e adaptação em comunidades vulneráveis, com orçamento definido, metas mensuráveis e indicadores de acompanhamento.

Outra medida essencial é a implementação de sistemas de mapeamento de riscos socioambientais baseados em dados desagregados por raça, renda e localização. Ferramentas de georreferenciamento e análise de dados podem apoiar decisões mais eficientes e evitar tragédias anunciadas. Também é urgente fortalecer a participação social de comunidades periféricas, negras, indígenas e tradicionais nas instâncias decisórias ambientais, garantindo não apenas escuta, mas poder de deliberação e controle social. Essas populações conhecem profundamente os territórios onde vivem e muitas vezes desenvolvem soluções inovadoras e sustentáveis, que carecem apenas de apoio técnico e financiamento adequado.

Nesse sentido, mecanismos de financiamento específicos para iniciativas locais de adaptação climática e proteção ambiental são fundamentais. É comum que comunidades quilombolas, ribeirinhas e indígenas desenvolvam práticas de manejo sustentável, reflorestamento e proteção de nascentes, mesmo diante de grande adversidade. Estimular e replicar essas práticas é mais eficiente — e mais justo — do que aplicar soluções de cima para baixo, sem diálogo com os territórios. A educação ambiental também deve ser integrada às escolas públicas, com ênfase na realidade local e nas formas como o clima afeta diretamente o cotidiano dos estudantes e suas famílias.

O Brasil pode se tornar referência mundial em justiça climática. Mas, para isso, precisa reconhecer que os efeitos das mudanças ambientais não são neutros. Eles seguem as mesmas rotas da desigualdade racial e social que já marcam nosso território há séculos. Trazer o debate sobre racismo ambiental para o centro das discussões da COP30 não é dividir o debate climático — é aprofundá-lo. É garantir que a transição ecológica seja inclusiva, democrática e eficaz. É dar sentido à palavra “sustentabilidade”, que só se concretiza quando alcança quem mais precisa dela.

A justiça climática no Brasil depende, inevitavelmente, do enfrentamento do racismo ambiental. Não se trata de ideologia, mas de compromisso com a realidade. E a realidade nos mostra que nenhuma política climática será completa enquanto não considerarmos quem está na linha de frente da crise — e quem historicamente foi deixado de fora das soluções. A COP30 tem a chance de fazer história. Que não percamos essa oportunidade.

Leia também:

CNJ cita suspeitas de ‘delitos contra a dignidade sexual’ e afasta desembargador de MG que absolveu acusado de estuprar menina de 12 anos

Urbel marca data para oficializar troca na presidência

Gilmar proíbe pagamento de ‘penduricalhos’ retroativos e alerta para sanções penais

Veja os Stories em @OFatorOficial. Acesse