Sucessão em Minas: separando fatos de boatos

As próximas semanas trarão definições mais objetivas. Até lá, convém separar o barulho do que é factual
Mateus Simões é um dos favoritos nas eleições desse ano (Foto: Elizabete Guimaraes / Comunicação ALMG)

Numa semana em que especulações, teorias, fofocas e “plantações” pipocaram fartas nas manchetes e pelos bastidores da sucessão do governo mineiro, entre boatos e fatos ficarei sempre com a segunda alternativa. Se Magalhães Pinto disse mesmo que “Política é como nuvem: você olha, está de um jeito; olha novamente e está de outro”, sigo o mestre e, pretensiosamente, complemento: nem tudo que parece, é. Inclusive as nuvens.

Não sei – e talvez nem ele saiba – se Rodrigo Pacheco será mesmo candidato, servindo ao propósito eleitoreiro do presidente Lula, já que o próprio senador, inúmeras vezes, disse não ter como objetivo ser governador do estado. A meu ver, o ex-presidente do Congresso reúne todas as condições para tanto. Porém, empenhar seu nome em uma disputa que será extremamente injusta e cruel com sua biografia não me parece a melhor opção.

Digo isso porque não faltaram manchetes afirmando que Pacheco já teria fechado com Lula e o PT. Como não faltaram teorias de que Alexandre Kalil teria se decidido pelo Senado, a despeito de conseguir pontuar bem nas pesquisas até então. Para compor o balaio de gatos conspiratório, Nikolas seria candidato, a pedido de Jair Bolsonaro, podendo formar, inclusive, uma chapa “imbatível” com Cleitinho. Meu Deus! Quanta viagem.

Segue o jogo

Como prefiro o critério de materialidade, meu quadro é outro. Mateus Simões, que assumirá o governo em breve, é pré-candidato pelo PSD, partido presidido nacionalmente por Gilberto Kassab, com apoio explícito de Romeu Zema, um dos governadores mais bem avaliados do país. Além disso, recebe manifestações públicas de apoio de Nikolas Ferreira e, mais recentemente, de Cleitinho Azevedo, ainda que em tom menos enfático.

Trata-se de um arranjo politicamente relevante: o governador em exercício, o deputado federal mais votado do estado e um dos senadores mais populares de Minas orbitando o mesmo projeto. Dizer que “Mateus não decola” ignora que, em eleição, estrutura e transferência de capital político costumam pesar tanto quanto desempenho inicial em pesquisas. O tempo de exposição e o controle da máquina são variáveis decisivas.

No mesmo tabuleiro, Tadeu Leite, presidente da Assembleia, surge como peça estratégica. A hipótese de migrar para o TCE significaria abreviar uma trajetória brilhante. Considerando que, se eleito, Mateus governará apenas um mandato por concorrer à reeleição, uma chapa com ambos abriria perspectivas consistentes para Tadeuzinho. Não é um cálculo de médio prazo, portanto, mas uma decisão racional. Um jogo de ganha-ganha.

Próximos capítulos

Por fora, correm nomes – ainda que bastante relevantes – menos prováveis. Alexandre Silveira, ministro de Lula, acorda pensando no Senado, almoça pensando no governo e dorme pensando em coordenar a campanha presidencial. Gabriel Azevedo precisa fortalecer-se no próprio MDB. E aquele ex-presidente atleticano citado acima, entre o Senado e o governo, precisa, primeiro, ser aceito em algum grupo político.

O ex-procurador-geral do MPMG, Jarbas Soares, e o presidente da Federação das Indústrias de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, são sempre citados nos bastidores por quem os conhece, mas muito distantes do eleitorado para se tornarem, em tão pouco tempo e em um ambiente tão polarizado, nomes verdadeiramente competitivos. De igual sorte, o prefeito de Patos e presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM), Luiz Falcão.

O que se apresenta acima, portanto, não é achismo ou torcida, como muitas vezes visto por aí, mas leitura de cenário. A sucessão mineira permanece totalmente aberta, porém menos caótica do que sugerem algumas manchetes apressadas. As próximas semanas trarão definições mais objetivas. Até lá, convém separar o barulho plantado do que é factual, e compreender que, na política, se as nuvens mudam, jamais mudarão por acaso.

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