Há alguns dias, fomos impactados pela SP-Arte, principal feira de arte da América Latina, que acontece anualmente no Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A feira amadureceu e, com sua identidade brasileira e latino-americana, vem crescendo em presença internacional. Ponto para nós, já que o mercado global valoriza feiras com DNA cultural. Talvez seja uma contraposição ao processo de globalização, tão ecoado há algumas décadas. Hoje, o local virou global. O “diferente” ganha destaque numa roupagem de expressão artística.
De alguns anos para cá, o que se observa é que a arte contemporânea vem ocupando um lugar cada vez mais destacado fora do circuito de colecionadores e amantes dessa expressão. Pessoas que antes não se interessavam agora frequentam as feiras e tentam entender esse universo.
Uma das importâncias da SP-Arte é que ela revela para onde caminha o mercado, o colecionismo e a própria indústria. Antecipa movimentos que também aparecem em grandes feiras internacionais.
Qualidade e diversidade
O público em geral se interessa em ritmo crescente, pois a obra deixa de ser apenas contemplativa e passa a integrar um estilo de vida. Observamos bem isso com o aumento significativo de galerias de design, com a presença de mobiliário autoral e a aproximação com arquitetura e decoração.
Aliás, esse ponto chama bastante atenção. O design deixou de ser apenas uma parte complementar da exposição e passou a ser estrela igualmente, com móveis, objetos e peças utilitárias autorais e funcionais. Esses itens também são considerados e tratados como obras de arte. Isso acontece inclusive nas feiras internacionais, indicando a forte tendência mundial do denominado collectible design. O colecionador hoje não busca apenas uma peça para a parede ou um canto da sala; ele constrói narrativas estéticas. Não compra apenas quadros, estabelece um estilo de vida.
Outro ponto que chama atenção no mercado é que vozes fora do eixo Europa-EUA ganham destaque. Artistas periféricos, indígenas, afrodescendentes e LGBTQIA+, além de alcançarem mais espaço, são muito valorizados. É o que se vê em muitos editais de exposições, que garantem pontos para a diversidade. Isso mostra que o mercado não busca apenas estética; procura identidade e discurso.
Consumo consciente
A ética passa a ser inserida nas obras, com consciência ambiental que se propaga como um discurso climático. Isso se traduz no uso de materiais recicláveis e processos conscientes. Funciona quase como uma justificativa de existência da obra e de sua valorização a partir dessa percepção. O mercado vive claramente um momento de consciência ecológica e coletiva.
Percebe-se atualmente que o público é mais bem informado, e os colecionadores, mais focados, com menos impulsividade. Se antes visitar a feira era um exercício de encantamento, com o mercado aquecido pelo impulso, hoje o deleite permanece, mas a ingenuidade cede espaço à percepção de um mercado complexo, crítico e consciente.
Para se fazer uma boa compra, o colecionador anda por horas nas feiras, visita e revisita galerias, às vezes comparece por mais de um dia até tomar uma decisão assertiva e estratégica. Afinal, arte, além de desejo, estilo de vida e comportamento, é um ativo.
Tendências e futuro
As feiras ganharam tanta relevância que observamos importantes ativações culturais em paralelo, como circuitos pelas cidades e visitas guiadas a ateliês. A experiência é a cereja do bolo.
Nota-se um movimento de novos artistas ganhando espaço e novos compradores iniciando coleções. O discurso ganha forma.
Enfim, a SP-Arte e as grandes feiras internacionais mostram que não são mais apenas vitrines; são plataformas de protesto, pensamento e discussão. A arte contemporânea não é somente a estética em que se apresenta. É aquilo que provoca.
Termino esta coluna com uma pergunta: o que de fato estamos colecionando, além de formas?