Do arame da fazenda ao jato com suas iniciais, PF detalha como esquema do INSS beneficiava Euclydes Pettersen

Relatório do inquérito da Sem Desconto mostra como um núcleo de assessores em Governador Valadares operava a lavagem de dinheiro
O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos)
O deputado federal Euclydes Pettersen (Republicanos-MG) foi um dos 48 indiciados na Operação Sem Desconto, que apura fraude bilionária contra o INSS. Foto: Republicanos / Divulgação

Inquérito da Polícia Federal (PF) sobre a Operação Sem Desconto, obtido por O Fator, mostra que o deputado federal mineiro Euclydes Pettersen (Republicanos), descrito como o mais bem pago na planilha de propinas do esquema de fraude bilionária contra o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), usava uma engrenagem própria para receber e lavar o dinheiro. 

A estrutura, que contava com ao menos três camadas de assessores, operadores financeiros e laranjas, tinha como base Governador Valadares, no Vale do Rio Doce, onde fica a base eleitoral do parlamentar. Os registros apontam que ele recebeu ao menos R$ 14,7 milhões, entre 2023 e 2024, que chegaram a ser usados na manutenção de aeronaves e despesas com vacinas para gado, arame e agrotóxicos. 

O relatório que indicia Pettersen também o classifica como fiador político da organização criminosa, identificado nas planilhas como “Herói E” e chamado de “irmão” e “bebê” em conversas com operadores do esquema. Os documentos também mostram que o “núcleo de lavagem de Euclydes” tinha função diferente da desempenhada pelos agentes do INSS.

Enquanto eles garantiam a manutenção das fraudes por meio da Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Rurais (Conafer), a ala do parlamentar cuidavam da blindagem política e administrativa. Licenciado do mandato, ele nega as acusações e afirma que o indiciamento é ato unilateral, que encerra a investigação, mas não dá início a um processo judicial. 

A PF registra que, entre os intimados que preferiram não depor, está o parlamentar e nomes ligados ao “núcleo de Valadares”. Agora, a decisão de apresentar a denúncia contra o mineiro e outras 47 pessoas que teriam participado da fraude nas aposentadorias dos aposentados fica a cargo da Procuradoria-Geral da República (PGR), chamada a se posicionar nos autos pelo ministro André Mendonça, relator do caso no Supremo Tribunal Federal (STF). 

O núcleo de Valadares

Segundo a investigação, o grupo “Os (ex)assessores parlamentares” reunia assessores e ex-assessores de Euclydes que atuavam como operadores da organização criminosa, com ordens diárias de transferência bancária e pagamento de boletos em empresas e lotéricas usadas para dificultar o rastreamento do dinheiro.

O principal nome desse núcleo é André Luiz Martins Dias. De acordo com o relatório, ele acionava Heleno Márcio Pereira Magalhães quase diariamente para movimentar valores pela HM Moto Peças, empresa de fachada em Governador Valadares que recebeu ao menos R$ 6,3 milhões entre 2021 e 2024.

No dia da busca e apreensão, Heleno confirmou que fazia as transferências por ordem de André, que dava comandos quase diários, inclusive durante uma viagem de lazer a um resort em Cancún, no México. O irmão dele, Marcos Antônio Martins Rosa Dias, também recebia repasses das mesmas empresas.

O ex-assessor também coordenava uma rede de laranjas usada para receber e pulverizar as propinas. Um deles era o concunhado Heldmir Moraes Baeta Neves, que emprestava contas pessoais e da própria empresa. Outra laranja era Neusmeire Silva Magalhães, faxineira de profissão, cujos documentos pessoais foram localizados no celular de André.

A esposa de André, Tatiana Horani Reginaldo, recebeu das mãos de Heldmir um pacote de dinheiro em espécie escondido dentro de uma sacola preta, entregue na casa do casal. Ela é sócia de uma empresa dona de um loteamento de mais de 90 mil m² em Valadares, que a PF aponta como incompatível com o patrimônio declarado da família.

Completavam esse núcleo Walton Cardoso Lima Junior e Ronaldo Lopes de Paiva, também ex-assessores parlamentares do deputado federal que, segundo o relatório da corporação, seguiram operando a organização criminosa mesmo depois de deixar o gabinete.

Ronaldo era quem repassava a Cícero Marcelino, principal operador financeiro do esquema e ligado ao presidente da Conafer, Carlos Roberto Ferreira Lopes, as listas de contas e lotéricas de Valadares usadas no fracionamento das propinas, com a orientação de manter cada depósito abaixo de R$ 25 mil para escapar dos sistemas de controle bancário.

Cícero orientava a esposa, Ingrid Pikinskeni Morais, a fazer dezenas de depósitos fracionados nas lotéricas de Valadares. Eles usavam centavos como código, como R$ 40.000,01, R$ 40.000,02 e R$ 40.000,03, o que permitia ao grupo saber quantos TEDs tinham sido processados sem precisar conferir cada comprovante individualmente.

Três delas, as loterias Fortuna, Triunfo e Tesouro de Minas, pertenciam a Marcelo Oliveira Barros e somaram R$ 8,4 milhões entre 2021 e 2025. Já a Construtora VLH, a Comercial MTC e a Comercial iPhones, geridas pelo contador José Geraldo de Oliveira, receberam R$ 5 milhões. A investigação aponta que ele era um elo técnico-operacional.

Como mostrou O Fator, o vereador de São Félix de Minas Marcelo de Oliveira Silva (PMN) afirmou aos investigadores que, a pedido de Euclydes, vendeu dólares e entregou R$ 400 mil em espécie em um endereço indicado pelo parlamentar na cidade do Vale do Rio Doce. Como garantia, recebeu um cheque da cúpula da Conafer que nunca foi compensado.

Um dos indiciados, Wendel Fernandes dos Santos, servidor público de São Félix de Minas, aparece no relatório como peça de um esquema de devolução de dinheiro à cúpula da entidade. Com salário de R$ 2,5 mil, ele movimentou R$ 3 milhões em transações com empresas de fachada ligadas aos operadores nacionais, sob a justificativa de empréstimos pessoais informais.

O fiador político no INSS

Para a PF, a função de Euclydes nunca foi operacional. Ele era “o principal fiador político do grupo no INSS e no Congresso Nacional” e usava sua influência para garantir a indicação e a permanência de procuradores e diretores no instituto que blindavam o Acordo de Cooperação Técnica (ACT) firmado pela confederação em 2017, mantendo-o livre de fiscalização.

A investigação chama atenção para a desproporção entre essa cifra e o total de emendas parlamentares destinadas por ele ao Instituto Terra e Trabalho (ITT), que somaram R$ 2,5 milhões. Para a PF, essa diferença de quase seis vezes reforça que o pagamento guardava relação com a compra contínua de influência política.

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A frota de aviões

Três aeronaves aparecem ligadas ao deputado em algum momento da cadeia de propriedade. Os investigadores dão destaque ao jato Hawker 400 XP, matrícula PS-EPN, cujo prefixo remete às iniciais completas do nome do parlamentar. A aeronave recebeu pintura e reforma pagas pela BRA Construtora, por R$ 387 mil.

Uma testemunha contou aos investigadores, no entanto, que o proprietário de fato era o parlamentar, que vistoriou pessoalmente o jato em novembro de 2025 e fevereiro de 2026. Essas visitas, inclusive, teriam ocorrido após ele ser alvo de busca e apreensão da Operação Sem Desconto, em novembro do ano passado.

Como mostrou O Fator, em 19 de fevereiro a aeronave foi alvo de diligência de busca e apreensão pela corporação, com base em mandado expedido pelo ministro André Mendonça. O pedido foi pelo sequestro do jato, sob suspeita de que o bem tenha sido adquirido com proveito de crime.

O Piper PR-CST, avaliado em R$ 5,5 milhões, foi cedido a Euclydes por comodato, o que permitia o uso da aeronave sem declará-la como patrimônio. Segundo a investigação, uma disputa com o sócio Hélder Feijoli, também dono do avião, terminou com Euclydes ameaçando o sócio com uma arma de fogo, fato registrado em boletim da Polícia Militar de Minas Gerais (PMMG).

Já o Cessna PR-ATM foi vendido por Euclydes, em 2022, ao cunhado de Carlos Roberto Ferreira Lopes e presidente do Instituto Terra e Trabalho (ITT), Vinícius Ramos da Cruz, por R$ 400 mil. Após a Operação Sem Desconto, ele revendeu a aeronave a Silas da Costa Vaz, ex-secretário da Conafer, por R$ 700 mil.

A transação foi considerada fictícia pela corporação. Mensagens listadas pelos investigadores mostram também que o presidente do ITT ordenou ao operador Cícero Marcelino o pagamento de R$ 360 mil para despesas dessa aeronave, na conta do piloto Daniel Otávio, por meio de uma empresa de fachada.

Um dos relatos sobre os aviões veio de um sócio de Euclydes na Fazenda Tupinambá (MT). Ele afirmou ter ouvido do próprio parlamentar que era dono de três aeronaves, pagava o piloto para abastecê-las e costumava viajar com grandes quantias em espécie para comprar gado sem nota fiscal.

O custo da vida no campo

Segundo a investigação, a fase final da lavagem aconteceu na Fazenda Tupinambá, mantida por Euclydes em sociedade de fato com a prima e o marido dela. O parlamentar comprou a parte do antigo sócio por R$ 5 milhões, com a primeira parcela, de R$ 1 milhão, paga em espécie, conforme recibo assinado em Governador Valadares, em fevereiro de 2023.

Depois da compra, ainda segundo a investigação, as empresas de fachada passaram a bancar o dia a dia da fazenda. A Agroterra Agropecuária, de Aripuanã, emitiu notas em nome de Euclydes entre 2021 e 2025 que somaram R$ 313,8 mil, com itens que vão de vacinas para gado, herbicidas e arame farpado a motosserra e até uma dobradiça.

Quem pagou essas notas, conforme o relatório, foi o ex-assessor André Luiz Martins Dias e a Fortuna Loterias. Outra frente de gastos foi um serviço de pulverização química por via aérea na fazenda em Mato Grosso, contratado com a Aeronorte Aviação Agrícola e quitado por uma empresa de fachada e um assessor.

Apelidos vão de “herói” a “bebê”

A organização batizou o núcleo de agentes públicos corrompidos de “Heróis”. Euclydes aparece identificado como “Herói E”, “Amigo E” ou apenas “E”. Apesar de o parlamentar apagar sistematicamente suas mensagens, os investigadores reconstruíram boa parte da movimentação por meio dos celulares de terceiros, que preservaram os registros das conversas e das transações.

O documento cita que Cícero, considerado um dos homens de confiança do presidente da Conafer, chama o parlamentar de “irmão”, “gato” e “bebê”. “A intimidade fica evidenciada nas mensagens. CICERO chama EUCLYDES de “irmão”, “gato” e “bebê”, expressões somente utilizadas em relações de muita proximidade”. 

Além do operador, o inquérito relata que o parlamentar possui uma estreita relação com a cúpula do esquema. Segundo a investigação, ele “parece ter sido padrinho de casamento de Vinícius Ramos da Cruz” e teria entrado na cerimônia acompanhado de uma das filhas de Carlos Lopes, presidente da Conafer. Vinícius e Carlos são cunhados. 

“A extração revelou que as mensagens diretas mantidas entre VINÍCIUS e o Deputado Federal EUCLYDES PETTERSEN foram apagadas do dispositivo, restando apenas registros de chamadas e mídias de visualização única, o que denota clara intenção de ocultar as tratativas entre eles”, afirmou a PF.

A chantagem e o apelido “X9”

Como mostrou O Fator, o relatório traz um episódio à parte sobre o deputado federal Eros Biondini (PL) e a filha dele, a deputada estadual Chiara Biondini (PL), que recebia R$ 10 mil por mês da confederação como “Assessora da Presidência”, sem prestação de serviço identificada pela Polícia Federal. Eles negam as acusações.

Segundo o documento, em novembro, dias antes da segunda fase da Operação Sem Desconto, Eros representou ao Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) contra o uso de uma emenda que destinou ao ITT, gesto que a cúpula da instituição tratou como traição.

Mensagens mostram que Lopes pressionava Euclydes, chamava-o de “X-9”, termo usado para se referir a delatores, e dizia que aquilo era “feio e perigoso”. Também ameaçava que “traidores não sairiam inocentes”. “EUCLYDES se justifica dizendo que a representação ao MPMG não ocorreu sob suas ordens”, diz trecho do documento. 

Indiciamentos

O documento resultou no indiciamento de Euclydes Pettersen e outras 47 pessoas por crimes que vão de organização criminosa e corrupção passiva à lavagem de capitais. Nem todos os citados nesta reportagem sobre o núcleo ligado ao parlamentar, porém, entraram nessa lista. É o caso de Tatiana Horani Reginaldo, mulher de André Luiz Martins Dias. 

Também não foram indiciados: Walton Cardoso Lima Junior, o “Waltinho”, que aparece no relatório recebendo R$ 10 mil mensais em propina direta; Heldmir Moraes Baeta Neves, que operava as transferências; e Marcos Antônio Martins Rosa Dias, irmão de André. Os três foram intimados a prestar depoimento, mas optaram pelo silêncio.

A opção por não depor também foi a escolha dos indiciados que tinham ligação com Valadares: Euclydes, os assessores André Luiz e Ronaldo Paiva, além da laranja Neusmeire. Heleno Márcio conversou espontaneamente com a PF quando foi alvo de busca e apreensão, mas em depoimento ficou calado.

A postura diferente foi a do vereador de São Félix de Minas, Marcelo de Oliveira Silva, e do funcionário público da cidade, Wendel Fernandes. Eles prestaram declarações tentando justificar as movimentações como “empréstimos” e “aluguéis”. As explicações não convenceram a PF, e ambos foram indiciados.

Cidades em Minas

Além de Governador Valadares, base do núcleo de assessores, e São Félix de Minas, outras cidades mineiras aparecem no inquérito por abrigarem peças centrais do esquema. Em Jequitinhonha e Itambacuri ficavam as fazendas da empresa de Carlos Roberto e da esposa dele, Bruna Braz, usadas para lavar dinheiro via compra de gado.

Já em Divinópolis, base de Alexandre Eduardo Ferreira Lopes (irmão de Carlos Roberto e diretor jurídico da Conafer), a PF apreendeu uma Toyota Hilux registrada em nome de um laranja, mas usada por ele no dia a dia. No dia da operação, ele recebeu mensagem de um “Dr. Hudson” avisando pra “dar um sumiço” antes da chegada da PF.

Todos eles, assim como o presidente do ITT, Vinícius Ramos, e integrantes da cúpula do INSS que, segundo a PF, teriam sido mantidos nos cargos por influência política do deputado – entre eles o ex-presidente da autarquia, Alessandro Stefanutto, o ex-procurador do órgão, Virgílio de Oliveira Filho, e o ex-diretor de benefícios, André Fidelis, também foram indiciados.

Outro lado

Procurado por O Fator para comentar sobre o indiciamento, Euclydes Pettersen disse nesta semana não ter participação nos fatos apurados pela Operação Sem Desconto e acrescentou que nunca indicou ninguém para cargo no INSS.

Ainda segundo o deputado federal, que está licenciado do mandato na Câmara, o indiciamento é um ato unilateral da autoridade policial que encerra a investigação, mas não dá início a um processo judicial.

“Suas conclusões foram formadas sem contraditório e sem que ainda se tenha examinado uma única linha da defesa. Não há denúncia, não há ação penal, não há julgamento. Minha defesa se manifestará nos autos, onde a versão da investigação será confrontada com documentos. Sigo trabalhando no exercício do mandato”, afirmou.

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

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