Os desafios de Lula no quarto mandato, do Congresso a Minas Gerais

Reeleito, petista terá oposição no Legislativo, sucessão indefinida e um PT mineiro dividido no segundo maior colégio do país
Lula em Minas
Lula (PT) terminou o 1º turno em Minas com 43,32% dos votos válidos, atrás de Flávio Bolsonaro (PL), e virou no 2º turno. Foto: Ricardo Stuckert

Reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de lidar com um Congresso Nacional mais à direita, uma vaga em aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) e a própria sucessão. 

Em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do país, o desafio é recompor um partido dividido. O petista venceu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no 2º turno neste domingo (25).

A partir de fevereiro, o PL terá a maior bancada nas duas Casas, com 121 deputados federais e 28 dos 81 senadores. Será a maior bancada partidária no início de uma legislatura desde 1988.

O PT, por sua vez, terá 70 deputados e nove senadores, menos de um terço da bancada do PL no Senado. Além do partido de Flávio, União Brasil, PP, Republicanos e Novo apoiaram o senador no 2º turno.

Com o partido do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) fortalecido, o governo terá de negociar cada votação com uma oposição maior do que a enfrentada no terceiro mandato. O primeiro teste, contudo, deve vir ainda neste ano.

A indicação do então senador e hoje ministro do Tribunal de Contas da União (TCU) Rodrigo Pacheco para a vaga aberta no STF é esperada para novembro, com aval do Planalto e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP).

Para chegar à Corte, o indicado precisa de ao menos 41 votos no plenário do Senado. Foi esse patamar que o advogado-geral da União, Jorge Messias, não alcançou em abril, quando teve 34 votos favoráveis.

Sucessão e Minas 

Impedido pela Constituição de disputar 2030, Lula completa 81 anos nesta terça-feira (27) e terá 85 ao fim do mandato. O PT chegou a esta eleição sem um sucessor construído, e a escolha de um nome passa a ser tarefa do próprio mandato.

E, qualquer projeto para 2030 terá de passar por Minas. Com 16,4 milhões de eleitores, o estado reúne 10,3% do eleitorado nacional, segundo o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), e só São Paulo, com 34,1 milhões, tem um colégio maior.

É nesse cenário que o PT terá, a partir de janeiro, um adversário no Palácio Tiradentes. Aliado de Flávio, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) foi eleito governador no 1º turno, com 55,40% dos votos válidos, e venceu em quase 97% dos municípios mineiros.

Na agenda entre os dois governos está a dívida do estado com a União, renegociada no Programa de Pleno Pagamento de Dívidas dos Estados (Propag). Minas aderiu ao programa em 31 de dezembro de 2025, com uma dívida confessada de R$ 179,3 bilhões.

Para obter juros menores, o estado ofereceu R$ 35,8 bilhões em ativos à União, o equivalente a 20% do débito. O governo mineiro, porém, ainda espera sinalização sobre quais bens o Planalto vai aceitar.

Na campanha, Flávio gravou vídeo com Cleitinho e se comprometeu a rever a dívida, segundo o governador eleito. Já o vice eleito, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), defendeu diálogo com o governo federal “seja lá quem for o presidente”.

PT mineiro

No PT mineiro, a eleição deixou feridas. Dirigentes estaduais passaram o ano queixosos com a concentração das decisões na cúpula nacional, que levou meses para definir o palanque de Lula no estado.

O desgaste chegou à presidente do PT mineiro, a deputada estadual Leninha. Em maio, segundo relatos, ela reagiu a declarações do presidente nacional do partido, Edinho Silva, e afirmou que ele precisava “resolver em Brasília” antes de ampliar articulações no estado.

A queixa de que Minas é tratada como secundária ganhou força com a ausência do presidente. Até o início de junho, Lula havia visitado o estado apenas duas vezes em 2026. O resultado nas urnas reforçou o diagnóstico. 

Depois de percorrer até o “plano F”, o partido lançou o deputado federal Patrus Ananias, que ficou em segundo lugar, com 26,34% dos votos válidos, mais de 29 pontos atrás de Cleitinho.

Patrus venceu em apenas 24 municípios, todos com menos de 100 mil habitantes. O próprio Lula perdeu terreno em todas as 853 cidades mineiras no 1º turno, em comparação com 2022, com a maior queda no Noroeste, de 10,2 pontos percentuais em média.

O partido teve, ainda assim, uma vitória no estado. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT) foi eleita senadora, com 19,44% dos votos válidos, e ocupará uma das cadeiras de Minas a partir de 2027.

Relação com Trump

A relação com os Estados Unidos segue como frente aberta. O governo de Donald Trump mantém sobretaxas a produtos brasileiros, e Lula telefonou ao americano em agosto para pedir o fim das tarifas.

Neste ano, os americanos aplicaram tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros. Em artigo publicado em julho no jornal The Washington Post, Lula afirmou que o comércio bilateral caiu 12,8% no 1º semestre.

A crise tem ligação direta com o bolsonarismo. Ao anunciar a sobretaxa de 50%, em julho de 2025, Trump citou em carta a Lula o julgamento de Jair Bolsonaro no STF, que chamou de “caça às bruxas”.

Semanas depois, o governo americano aplicou a Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes, relator da ação da trama golpista. As sanções foram defendidas em Washington pelo então deputado federal Eduardo Bolsonaro, que se mudou para os Estados Unidos em 2025 e teve o mandato cassado por faltas em dezembro.

A proximidade se manteve na campanha. Em maio, Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca, em encontro articulado por Eduardo, e, um dia após o 1º turno, o americano saudou a “grande vitória” do senador, sem declarar apoio formal.

O peso de Trump sobre o eleitor brasileiro, no entanto, é ambíguo. Em pesquisa Genial/Quaest de março, 32% disseram que um apoio do americano a Flávio aumentaria a chance de votar em Lula, contra 28% que apontaram o senador.

Fransciny Ferreira é jornalista, com especialização no setor público e em gestão de imagem. Atua na cobertura política, com experiência em redações, assessoria de imprensa e marketing digital. Foi editora-chefe de O Tempo em Brasília, assessora da Presidência do Senado e liderou estratégias de PR no setor farmacêutico. Sugestões de pautas para: [email protected]

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