A baixa audiência esperada, o alto número de convites em uma campanha de 45 dias, o risco de exposição em encontros com muitos candidatos e o atual cenário da disputa pelo governo de Minas Gerais são apontados por integrantes de quatro campanhas, ouvidos sob condição de anonimato por O Fator, como razões para a resistência à participação em debates.
Até agora, apenas o primeiro encontro, promovido pela Band, reuniu mais de três candidatos. O debate programado pela Rádio 98 e pelo jornal O Tempo foi cancelado depois de metade das candidaturas que cumprem os requisitos para o recebimento do convite não confirmarem presença.
As fontes afirmam que os debates ainda têm importância eleitoral, mas sustentam que o formato perdeu capacidade de atrair público diante das características das campanhas dos últimos anos. A avaliação é de que as equipes precisam escolher em quais eventos investir tempo e estrutura, especialmente em um estado com 853 municípios e uma agenda concentrada em viagens, gravações, entrevistas, atos de rua e mobilização.
Uma das campanhas informou que recebeu 14 pedidos de debate durante o período eleitoral. Para esse interlocutor, a quantidade de convites torna inviável atender a todas as emissoras. A sugestão é que veículos formem pools para promover um número menor de encontros, com transmissão conjunta.
“Faz dois debates e pronto”, afirmou uma fonte. Segundo ela, a realização de eventos compartilhados permitiria concentrar candidatos, ampliar a divulgação e reduzir a disputa por agendas entre emissoras.
Audiência pesa na decisão
A audiência é outro fator considerado pelas campanhas. Um dos interlocutores citou que o debate da TMC registrou 40 mil visualizações. Em comparação, segundo ele, publicações do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) alcançam cerca de 400 mil visualizações nas redes sociais.
A comparação orienta o cálculo político das equipes. Na avaliação de uma fonte, uma participação considerada positiva em um debate de alcance restrito pode ter efeito limitado sobre o eleitorado, enquanto uma atuação ruim, uma resposta mal recebida ou um confronto pode ganhar repercussão entre adversários, imprensa e redes sociais.
“Se você for excelente no debate, ninguém viu. Se for péssimo, os adversários e a imprensa repercutem”, afirmou.
Integrantes de campanha também criticam debates com muitos participantes. A leitura é de que o formato dificulta a apresentação de propostas e favorece interrupções, embates pessoais e discussões laterais. Uma das fontes citou o risco de um candidato entrar em uma discussão entre adversários sobre temas alheios à campanha estadual e ser associado ao episódio.
Disputa sem confronto direto
A posição de Cleitinho nas pesquisas também aparece nas conversas como elemento relevante. Um dos interlocutores avalia que a liderança do senador e o grau de desconhecimento dos demais postulantes reduzem o interesse do eleitorado pelos debates.
Segundo o interlocutor, o formato costuma gerar mais audiência quando há uma disputa equilibrada pela liderança ou por vagas no segundo turno. Sem esse cenário, afirma, parte do público não vê motivo para acompanhar horas de confronto entre candidatos.
“O debate não perdeu importância. Ele perdeu interesse diante da conjuntura que o país e, especialmente, Minas vive”, disse.
Na avaliação da fonte, Cleitinho mantém vantagem por sua presença pública e pelo reconhecimento de seu nome, enquanto os adversários ainda enfrentam dificuldade para se tornar conhecidos. Isso cria uma disputa na qual as candidaturas com menor intenção de voto precisam buscar exposição, mas também calculam o risco de participar de debates com baixa audiência e alto potencial de desgaste.
Eleitorado cansado
Outra leitura apresentada pelas fontes é a de que o eleitorado chega à campanha com menor interesse por confrontos políticos, após as eleições presidenciais de 2018 e 2022. Um integrante de campanha chamou o ambiente atual de “eleição do cansaço”, em referência ao desgaste provocado pela polarização entre os campos de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL).
Para ele, há uma parcela do eleitorado que se afastou do debate político e não demonstra disposição para acompanhar confrontos entre candidatos. O cenário contrasta com 2022, quando a disputa presidencial mobilizou redes sociais, televisão e imprensa.
As campanhas também apontam que ainda não surgiu, em Minas, uma candidatura ou tema capaz de produzir maior mobilização. Na leitura de uma fonte, os concorrentes ainda não encontraram um discurso que gere identificação, participação e entusiasmo entre os eleitores.