Nova bandeira de Simões, PEC do reajuste a Segurança está parada há dois anos e tem coronel que ameaçou Zema como padrinho

Governador mineiro anunciou apoio a texto em banho-maria na ALMG desde 2024 após ‘mal-estar militar’ com prefeito de Ouro Preto
Romeu Zema e Mateus Simões
Ao lado de Zema, Simões acendeu a Pira da Liberdade, em rito tradicional do Dia de Tiradentes. Foto: Gil Leonardi/Imprensa MG

Defendida publicamente pelo governador Mateus Simões (PSD) nessa terça-feira (21), durante a solenidade de entrega da Medalha da Inconfidência, em Ouro Preto (Região Central), a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) sobre o reajuste anual dos salários das forças de segurança de Minas Gerais está em banho-maria na Assembleia Legislativa (ALMG) desde 2024. 

Um dos padrinhos do texto é o tenente-coronel Domingos Sávio de Mendonça, que em 2019 ganhou notoriedade por causa de um áudio com ameaças a Romeu Zema (Novo). No início deste ano, o oficial da reserva cumpriu pena de detenção em regime aberto por causa de ofensas a um colega de farda.

A PEC chegou à ALMG em junho do ano retrasado e, formalmente, é assinada por Câmaras Municipais de municípios mineiros. Mendonça, contudo, redigiu a justificativa do texto. Nessa terça, a propósito, o policial foi agraciado com a Medalha de Honra, segundo nível das comendas em memória de Tiradentes.

Simões anunciou o apoio à PEC minutos após um entrevero com o prefeito de Ouro Preto, Ângelo Oswaldo, do PV. O anfitrião fez um contraponto ao modelo de escolas cívico-militares, tema de um projeto de lei enviado pelo Executivo aos deputados estaduais na semana passada, e advogou em prol do que chamou de “escola cívico-militante”.

“Esse tema (da PEC) ficou parado durante muito tempo, mas, diante do ocorrido de hoje e da necessidade de reforçar o respeito às forças de segurança, é um bom gesto”, disse o pessedista, atrelando a decisão de defender a proposta ao mal-estar com Oswaldo.

A iniciativa que trata do aumento anual dos vencimentos das tropas não tem sequer relator definido. Para ser aprovada, a proposta precisará passar pela Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) e por uma Comissão Especial, além de dois turnos em plenário. Adicionalmente, cabe lembrar que a Lei Eleitoral proíbe a sanção de leis que configurem vantagens remuneratórias 180 dias antes do pleito, agendado para 4 de outubro.

“Apesar das forças que tentaram impedir que a gente pudesse garantir, às forças de segurança, reajuste anual, vamos passar a defender isso, inclusive, como alteração constitucional, de forma que não corramos mais risco, pois, aparentemente, ainda há aqueles que acreditam que a segurança não é importante”, completou Simões, quando abordou a PEC.

‘Torta de climão’

Ao criticar a ideia de escolas cívico-militares, Ângelo Oswaldo recorreu à chamada “Campanha Civilista”, nome dado à empreitada conduzida por Rui Barbosa em 1920. A “Águia de Haia” desejava chegar à Presidência da República por meio de um projeto de oposição ao marechal Hermes da Fonseca, que acabou eleito.

“Para que a aula seja adequadamente ministrada, necessário se impõe que a sua pedagogia se estenda pelas vastidões do Estado, fazendo da escola mineira um modelo para a formação cívica e cultural de cada geração. Uma escola cívico-militante, não militarista, como pregava a campanha civilista de Rui Barbosa”, pregou.

Mateus Simões, então, utilizou seu discurso para rebater o prefeito ouro-pretano. Ele apontou “descortesia” de Oswaldo e citou nominalmente os almirantes, generais, vice-almirantes, brigadeiros, coronéis e tenentes-coronéis agraciados com a Medalha da Inconfidência. 

“Minas os recebe de braços abertos. Me desculpem se, eventualmente, o dono de alguma casa ou o representante de algum espaço, não tenha com os senhores o respeito que merecem”, pontuou.

Posteriormente, Oswaldo divulgou desagravo e afirmou que, diferentemente da avaliação de Simões, não promoveu ataques às Forças Armadas.

“Eu disse que as Forças Armadas do Brasil estão pacificadas e coesas. Eu critiquei a escola cívico-militar que ele quer infligir à educação de Minas Gerais”, rebateu.

Busca por acenos

No texto anexado à PEC sobre os reajustes, o coronel Domingos Sávio de Mendonça se identifica como coordenador-geral do Movimento Independente dos Operadores da Segurança Pública de Minas Gerais (Miosp-MG).

Ele classifica a proposta como forma de “assegurar, substancialmente, um direito de natureza constitucional, promover estabilidade nas relações entre os servidores públicos e o Estado, abolir a violência patrimonial e psicológica praticada pelo Estado em desfavor de seus servidores públicos”.

A sugestão de Emenda à Constituição Estadual está inserida em meio a uma tentativa de Mateus Simões de angariar apoio dos servidores da segurança pública. O governador, que é pré-candidato à reeleição, enfrenta resistência de setores ligados às tropas. Parlamentares do PL ligados à classe, por exemplo, são contrários a uma eventual aliança da legenda com o PSD.

Os desgastes remontam ao início da gestão Zema, em 2019. À ocasião, o governo concordou em recompor perdas inflacionárias dos soldos dos agentes em três parcelas anuais de 2020 a 2022. À ocasião da sanção do texto, porém, apenas a parcela de 2020, de 13%, foi liberada.

De lá para cá, o Palácio Tiradentes fez tentativas de recompor a relação. No ano passado, por exemplo, Zema reservou mais de R$ 1 bilhão do orçamento de 2026 para bancar uma ajuda de custo para alimentação dos agentes.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

Foi repórter especial do caderno de Política do Estado de Minas. Trabalhou, também, na Rádio Itatiaia. Antes, militou no jornalismo esportivo, no Superesportes.

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