Aconteceu numa sexta-feira recente, em uma mesa com amigos no território do confrade-irmão Paulo Sérgio. Na empolgação de uma ideia, ele, Paulo Sérgio, gesticulou e sua mão resvalou na minha taça de vinho. Por puro reflexo, consegui salvá-la, mas a camisa, novinha em folha, ganhou uma generosa mancha de tinto. Fez-se silêncio por um segundo, que foi prontamente quebrado por uma gargalhada geral – daquelas que desmontam a gente e limpam o ar de qualquer constrangimento.
O riso tem essa alquimia: muda a temperatura de um lugar. Minha esperança no futuro não vem de gráficos ou tecnologias, mas de algo mais antigo: a gente precisa reaprender a rir. Não o deboche, que é rir de quem cai, mas o humor que areja as idéias e coloca as coisas no devido lugar.
O problema é que confundimos seriedade com profundidade. Achamos que, para ser levado a sério, é preciso ter cara de enterro, e o resultado é uma procissão de gente grave em reuniões que parecem velórios.
Um brinde ao riso
Como li em um livro de Lin Yutang, líderes que se esquecem como se ri perdem o senso de proporção. Pode-se ter os títulos que for; se você não sabe mais rir de si mesmo, sua régua está torta. O riso honesto desmonta a empáfia na hora. E isso não é piada, é uma questão de saúde. O riso funciona como graxa na engrenagem das relações. É o professor que ri do próprio erro na lousa e ensina melhor, ou o chefe que usa uma piada para mostrar que, mesmo na crise, é possível seguir em frente.
Existe uma seriedade que faz mal, a que vira pose. Aquele “espírito de gravidade”, como dizia um filósofo, que puxa tudo para o ressentimento. O humor, ao contrário, é um respiro. Ele não resolve o problema, mas te dá um minuto para não agir de cabeça quente.
Não é à toa que fanatismos e ditaduras têm pavor do riso. O humor fareja o exagero, aponta o ridículo, e essa é uma luz que o poder não consegue apagar. Claro, existe o humor que fere – o de rir dos outros. Mas rir com os outros é artesanato fino.
Um brinde à vida
Volto àquela sexta-feira. O Confrade Paulo Sérgio levantou um guardanapo e decretou: “Vinho bom escolhe a companhia“. Rimos de novo. Ninguém ali ficou mais rico, mas saímos com a certeza de que a noite deveria continuar.
Minha fé no futuro talvez seja só isso: recuperar a capacidade de rir de mim mesmo e com os outros; e não dos outros. Isso não está em planos de governo, mas cabe numa mesa, num corredor, no rosto de qualquer um.
Portanto, desconfie da carranca. Tirar um só tijolo desse muro de hostilidade já é um belo começo. É como quem seca a camisa manchada, brinda à amizade e segue em frente. Porque a vida – e essa é a boa notícia – continua servindo bons vinhos.