A primeira coisa que me veio não foi tristeza. Domingo passado, vi pelo olhar de quem estava perto o que faziam com a memória de um homem que nunca subiu em palanque, nunca disputou cargo, nunca escreveu manifesto. Era apenas irmão de uma ex-presidente. Um marido, um pai, um amigo. Mas para o linchamento digital bastava o sobrenome. Ele mal havia partido e já corriam soltos os epítetos. A morte, em vez de calar, parecia autorizar o acerto de contas. Saí daquela tarde com a impressão de que nem o silêncio dos mortos escapa mais.
A morte sempre foi o canto onde a vaidade descansa. Reis e mendigos perdem ali o sobrenome e o corpo larga a disputa que a alma sustentou. Durante séculos os homens falaram baixo diante dos defuntos, não por medo deles, mas por respeito ao que ainda pulsava em quem ficava de pé. Esse pacto foi quebrado.
Hoje a madeira do caixão ainda cheira a verniz e já há dedos apontando. Enterram-se pessoas, mas também partidos que o morto não escolheu e bandeiras que ele não segurou. O que era alguém que suava, tinha medo de dentista e gostava de manga na infância vira símbolo. Símbolo não tem velório; tem plateia. O luto virou posicionamento.
Existe uma doença silenciosa que exame nenhum acusa: não dá febre, não altera a pressão. Apenas endurece o olhar. O sujeito continua cumprindo horários, abraçando os filhos, mas quando encontra alguém que imagina pertencer ao grupo errado, uma chave invisível desliga a empatia com um estalo seco. O miserável nem sempre é quem tem pouco dinheiro; às vezes é quem já não consegue sentir, quem secou por dentro e olha para um corpo enxergando apenas uma sigla.
A história está cheia de povos que começaram matando pessoas, mas nenhum começou assim. Antes aprenderam a matar a pessoa dentro da pessoa. Chamaram o vizinho de inimigo e, quando se deram conta, já não havia culpa em eliminar o outro.
Lembrei então do meu pai, Nery Mendonça, vereador na minha Juiz de Fora pelo antigo PTB, e do amigo que teve na vida, Inácio Halfeld. Eram opostos em quase tudo, votavam em lados que se estranhavam. Mas se sentavam na mesma calçada para falar da vida. Café demorado. Respeitavam-se como só quem não precisa concordar consegue respeitar. Quando Inácio faleceu, fomos constituídos advogados do espólio dele, e meu pai não hesitou: não cobramos honorários. Amizade ali não era conveniência; era lealdade nua, dessas que não pedem recibo.
Há quem imagine que amar o próximo seja concordar com ele. Nunca foi. Amar é mais difícil e menos fotografável: é reconhecer humanidade justamente quando a discordância convida ao desprezo. É fácil abraçar quem confirma nossas certezas; difícil é impedir que elas nos impeçam de abraçar quem delas discorda.
Em sessões colegiadas, essa mesma doença silenciosa pode se instalar sem alarde. Acontece quando quem julga esquece que é barro. Aí a convicção vira vaidade, e o jurisdicionado deixa de ser rosto para virar tese vencida. A morte da pessoa dentro da pessoa também se consuma no voto que despreza o drama alheio. Saramago dizia que convencer é colonizar o outro. Eu me pergunto: que juiz sou, afinal, senão alguém que precisa convencer e depois impor? Carrego esse paradoxo. A herança do meu pai e do Inácio Halfeld me socorre: duvidar das próprias razões antes de assinar o acórdão. Divergir do colega é ofício; desumanizar o destinatário é covardia. A mão que lavra o acórdão precisa estar limpa de vaidade.
O drama talvez não seja o excesso de opiniões, mas a escassez de silêncio. Falta pausa para sentir a dor sem transformá-la em análise. Falta perceber que nenhuma convicção política devolve um filho aos pais ou um amigo aos que ficaram esperando desculpas que não vieram.
Contaram-me uma vez a história de um rei que deixou três ordens ao morrer. Exigiu que os médicos mais afamados carregassem seu caixão, provando que a ciência não vence a morte. Exigiu que sua fortuna fosse espalhada pelo caminho, provando que dinheiro não compra vida. E exigiu que suas mãos ficassem para fora do caixão. Para que o povo compreendesse que viemos ao mundo sem nada e sem nada partiremos.
O rei estava certo sobre as coisas. Sobre o que não são coisas, não sei. Porque meu pai e Inácio Halfeld também partiram de mãos vazias, mas levaram o que não se vê e não se pesa: os cafés no calçadão da rua Halfeld, as discordâncias sem ofensa, o respeito que sobreviveu a décadas de pensamentos opostos. Levaram a porção de humanidade que se ofereceu em vida. Essa, nem a internet digere.