STJ dá 90 dias ao TJMG para reavaliar afastamento e veta renovação automática de prefeito de Três Marias

Decisão mantém Danilo Rezende fora do cargo, mas impede renovação baseada apenas nas suspeitas já analisadas
STJ estabelece limite para afastamento do prefeito de Três Marias. Foto: Redes Sociais / Divulgação

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou, nesta quarta-feira (26), que o Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) reavalie, em até 90 dias, a necessidade de manter o afastamento do prefeito de Três Marias, na Região Central, Danilo Rezende (Republicanos).

O prefeito seguirá fora do cargo por enquanto, mas a decisão impede que a medida seja prorrogada ou renovada com base apenas nas mesmas suspeitas já analisadas pela Justiça.

Danilo está afastado da prefeitura e proibido de entrar no prédio da administração municipal e em órgãos relacionados desde 10 de junho. No dia 19 deste mês, tribunal mineiro manteve a medida ao considerar que o retorno dele ao cargo poderia representar risco de repetição dos fatos investigados e de interferência na produção de provas.

Ao analisar o pedido da defesa, o ministro Reynaldo Soares da Fonseca, do STJ, decidiu não autorizar o retorno imediato do prefeito. Para o ministro, o TJMG apresentou elementos concretos ao justificar o afastamento, como as suspeitas de irregularidades em contratos do município e a possibilidade de que o cargo fosse usado para prejudicar as investigações.

O STJ, no entanto, entendeu que a medida não pode continuar sem prazo definido.

A investigação foi aberta em fevereiro de 2025 e, de acordo com a decisão, ainda não havia informação sobre apresentação de denúncia contra o prefeito.

Para o ministro, o afastamento de um chefe do Executivo eleito precisa ser revisto ao longo do tempo, especialmente porque interfere diretamente em um mandato escolhido pelos eleitores.

A partir da intimação do TJMG, a 6ª Câmara Criminal terá 90 dias para examinar novamente a situação. Os desembargadores deverão considerar o andamento da investigação, as diligências pendentes, a eventual apresentação de denúncia e a existência de fatos recentes que indiquem risco de repetição de crimes ou de interferência na coleta de provas.

Dentro desse prazo, o TJMG poderá revogar o afastamento antes da data final, mantê-lo até o limite definido pelo STJ ou adotar outras medidas cautelares. Essas alternativas, porém, não poderão ter, na prática, o mesmo efeito de impedir o prefeito de exercer o mandato.

Ao fim dos 90 dias, o afastamento e a proibição de acesso à Prefeitura deixarão de valer automaticamente.

Para que Danilo Rezende volte a ser afastado depois disso, será necessário apresentar fato novo ou informação até então desconhecida que indique uma situação diferente da já examinada. A simples apresentação de uma denúncia não será suficiente, por si só, para justificar uma nova medida.

Danilo Rezende é investigado pelo Ministério Público de Minas Gerais por suspeitas relacionadas a contratações feitas pela Prefeitura de Três Marias. Entre os crimes apurados estão organização criminosa, lavagem de dinheiro, associação criminosa, fraude em contratação pública, falsidade ideológica e inserção de dados falsos em sistemas públicos.

Uma das principais frentes da apuração envolve um contrato de R$ 3,78 milhões firmado com a Viacoop Cooperativa Serviços e Transportes para locação de veículos e máquinas e serviços ligados ao transporte escolar rural.

Segundo o Ministério Público, há indícios de que a contratação ocorreu sem processo licitatório regular e de que etapas do procedimento teriam sido invertidas.

A investigação também apura a suspeita de que micro-ônibus escolares teriam sido adquiridos por pessoas interpostas e usados para atender o próprio município, com possível direcionamento de linhas mais rentáveis. As suspeitas ainda estão sob investigação e não houve julgamento definitivo sobre eventual responsabilidade do prefeito.

O STJ pediu ao TJMG informações sobre o estágio da investigação, as diligências pendentes e a eventual apresentação de denúncia. O tribunal mineiro terá 15 dias para responder. Após a reavaliação das medidas, deverá comunicar imediatamente a decisão ao STJ.

Lucas Ragazzi é jornalista investigativo com foco em política. Integrou o Núcleo de Jornalismo Investigativo da TV Globo e tem passagem pelo jornal O Tempo, onde cobriu o Congresso Nacional e comandou a coluna Minas na Esplanada, direto de Brasília, e pela Itatiaia. É autor do livro-reportagem “Brumadinho: a engenharia de um crime”.

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