Desde que foi inaugurada, em março de 1971, a Rodoviária de Belo Horizonte viveu altos e baixos. Depois de um momento de glórias, o terminal experimentou a decadência. Agora, aos poucos, o complexo busca retomar o vigor dos tempos iniciais. A volta por cima começou a ser dada em 5 de setembro de 2022, quando o consórcio Terminais BH assumiu, pelo prazo de 30 anos, a operação do espaço.
De lá para cá, houve a aposta em ações como a implantação de uma sala VIP e até mesmo de um cinema, que funciona às sextas-feiras e é palco para a exibição gratuita de curta-metragens.
No campo estrutural, a concessionária também ampliou o mix de lojas de serviços, lanchonetes e quiosques de alimentação, além de promover obras estruturais, revitalizando os pilares do prédio, que apresentavam ferragens expostas, e trocando o piso do estacionamento, a fim de conter infiltrações. Por causa do mesmo objetivo, a concessionária ainda promoveu nova impermeabilização do piso dos jardins que ficam nas laterais externas do edifício.
“A gente tinha um grande problema de infiltração nas áreas descobertas”, afirma Vanessa Costa, CEO da Terminais BH.
As deficiências, segundo ela, eram resultado do longo tempo em que a edificação ficou sem manutenção estrutural adequada.
Uma grande praça de encontro
A Rodoviária de Belo Horizonte é um grande ponto de encontro com 28 mil metros quadrados de área construída, tamanho equivalente ao de três quarteirões do Centro da cidade.
Os números do prédio impressionam. O consumo de energia elétrica equivale ao de uma cidade de 3,5 mil habitantes. Nele, há 169 sanitários e 1.156 cadeiras, onde os usuários podem descansar enquanto esperam pelo início das viagens ou pela chegada de amigos e parentes vindos de outros municípios.
Por lá, transitam anualmente cerca de 7,3 milhões de pessoas, originárias de cidades localizadas tão perto, como Confins, a 40 quilômetros de Belo Horizonte, ou tão longe, como Rio Branco, capital do Acre, no coração da Amazônia.
A circulação de pessoas já foi maior. Em 2019, ano anterior à pandemia de Covid-19, mais de 8,5 milhões de pessoas passaram pelas dependências da Rodoviária. A emergência sanitária fez com que esse número caísse para menos da metade: 3,9 milhões. Agora, ano a ano, a estatística vem subindo.
Apesar dos aumentos graduais, Vanessa Costa não espera que os números de antes sejam novamente atingidos. Ela atribui o cenário a uma mudança de hábitos. Viagens para reuniões de trabalho, por exemplo, caíram em desuso, perdendo espaço para as conferências virtuais.
“Era um mundo muito diferente”, resume a CEO da Terminais BH.
Dos guichês à sala VIP
O Terminal Rodoviário Governador Israel Pinheiro (Tergip), nome oficial da Rodoviária de Belo Horizonte, tem três andares. O principal — e de maior movimento — é o piso 2, onde fica o hall de entrada. Neste pavimento, estão os guichês de venda de passagem, as lanchonetes e os quiosques.
Os guichês das viações aparecem logo que o passageiro põe o pé na Rodoviária. Os boxes foram estrategicamente instalados no local por serem a razão da existência do terminal.
“É nossa atividade-fim”, explica Vanessa Costa.
As lanchonetes ocupam o fundo do hall e parte das laterais. Já os quiosques dividem a área central com as cadeiras onde os passageiros aguardam o momento de descer para o embarque.
Também no hall ficam as mesas, posicionadas ao lado dos quiosques de alimentação, e as lojas, que incluem estabelecimentos oficiais de Atlético, Cruzeiro e Flamengo, com produtos como camisas de jogo das equipes.
Vanessa Costa explica que o mix das lojas já era muito variado quando a concessionária assumiu, em 2022. Mesmo assim, foram feitas mudanças de forma a diversificá-lo ainda mais. A reboque do crescimento da oferta de produtos, a gestão do terminal instalou mesas para permitir que as pessoas pudessem se alimentar sentadas e afixou bancadas laterais perto das escadas que dão acesso ao piso de embarque, dando outra opção aos que desejam ler ou tirar rápidos cochilos antes de viajar.
Um piso acima, está a sala VIP. O espaço, que começou a funcionar em maio do ano passado, fica aberto 24 horas por dia e oferece climatização, buffet completo, sofás de couro, estações de trabalho com wi-fi e tomadas, TVs com programação própria e banheiros com a opção de chuveiro, pago à parte. O ambiente também conta com quartos com camas e ar-condicionado para descanso do passageiro.
A comodidade, no entanto, não fica restrita aos que podem bancar a sala VIP. No hall de entrada da Rodoviária, há 48 tomadas que permitem a recarga dos celulares dos passageiros.
Na telona
O cinema da Rodoviária de BH, por sua vez, funciona às sextas-feiras, em sessões às 18h, às 19h, às 20h e às 21h. Em cada horário, são exibidos dois curtas. Não há cobrança de ingresso e o espectador ainda tem direito a uma porção de pipoca.
A ideia de exibir filmes nas dependências do terminal nasceu a partir da sugestão apresentada por uma produtora de filmes. Segundo Vanessa Costa, a concessionária do espaço avalia positivamente a possibilidade de firmar novas parcerias do tipo.
“A gente gosta de trazer esses outros tipos de atividades para o terminal. Para que quem está aguardando o horário do ônibus possa aproveitar”, pontua.
Um início glorioso
Hoje com oito plataformas para ônibus e capacidade para realizar, simultaneamente, até 48 embarques e mais 14 desembarques, a Rodoviária de Belo Horizonte foi, por 11 anos, a maior da América Latina. O título viajou alguns quilômetros em 1982, com a inauguração, na cidade de São Paulo (SP), da Rodoviária do Tietê.
Quando entrou em operação, em 1971, o terminal belo-horizontino impressionava pelo tamanho e pela beleza da sequência das curvas em concreto armado que compõem o seu teto. Trata-se da característica mais marcante do modernismo brutalista, estilo arquitetônico que guiou a construção da edificação.
O projeto foi assinado por um grupo de 10 arquitetos: Fernando Graça, Francisco Espírito Santo, Luciano Passini, Mardônio Guimarães, Marina Wasner, Mário Berti, Raul Costa da Cunha, Ronaldo Massotti, Suzi de Mello e Walter Machado. A coordenação da obra ficou a cargo de uma equipe de engenheiros do Departamento de Estradas de Rodagem (DER), ligado ao governo de Minas Gerais.
A Rodoviária de BH também chamava a atenção pela esteira rolante e pela iluminação do estacionamento, feita por uma torre — seguramente a mais alta da cidade — composta por quatro lâmpadas de vapor de mercúrio.
Nos seus primeiros 32 anos, a operação do terminal foi feita pelo DER. Em 2003, a gestão foi transferida para a Prefeitura de Belo Horizonte (PBH), então sob o comando de Fernando Pimentel (PT). O Executivo municipal, entretanto, não promoveu grandes investimentos para a modernização do edifício, cuja idade, àquela altura, já começava a pesar.

Morte decretada (mas revista)
Sucessor de Pimentel, Marcio Lacerda (então no PSB) chegou a decretar o fim da Rodoviária de BH no Centro da cidade. Seu projeto era substituir o complexo erguido em 1971 por dois terminais. Um deles seria construído no Bairro Calafate, na Região Oeste; outro, na Cristiano Machado, na altura do São Gabriel (Nordeste). A prefeitura chegou a promover a desapropriação da área que abrigaria a rodoviária da Cristiano Machado, mas nenhum dos projetos foi adiante.
O projeto de Márcio Lacerda também previa a construção, no espaço do estacionamento do atual complexo rodoviário, do centro administrativo da prefeitura, reunindo cerca de 60 órgãos e aproximadamente 10 mil servidores. Tombado pelo município em 1964, o prédio do Tergip seria mantido de pé, mas com outra função.
Sem conseguir avançar no funcionamento dos dois novos terminais, o Executivo municipal não pôde tirar do papel a proposta de um centro administrativo.
Em meio ao impasse, Lacerda devolveu a gestão da Rodoviária de BH ao governo estadual em 1° de março de 2016, nove meses antes de encerrar o mandato na prefeitura. À época do repasse da administração ao Palácio Tiradentes, contudo, o terminal lidava com anos de pouca atenção do poder público e estrutura defasada.
Até 2022, quando o espaço foi concedido à iniciativa privada, houve melhorias pontuais na Rodoviária, por meio de ações como a reforma dos sanitários, a revitalização da parte elétrica, a retomada das esteiras rolantes e a instalação de uma nova praça de alimentação.
Coordenador de tráfego do terminal, Daniel Bregunce Ferreira afirma que a permanência da Rodoviária no Centro de BH foi a melhor solução, especialmente para os passageiros de trajetos menores, que desembarcam em uma área que dá fácil acesso a outras regiões da cidade.
“Eles vêm para Belo Horizonte, resolvem o que têm que resolver e depois retornam para suas localidades”, afirma.
Se as novas rodoviárias tivessem sido implantadas, esses usuários teriam, na maioria dos casos, de fazer um novo deslocamento até chegar ao destino final em solo belo-horizontino.
Funcionário da rodoviária desde 2003, Daniel era, inicialmente, contratado da Prefeitura de BH. Depois, passou a compor o quadro de pessoal do governo estadual. Quando houve a concessão à iniciativa privada, foi incorporado à equipe da Terminais BH.
Apesar das idas e vindas, o coordenador de tráfego garante não ter sentido receio de perder o emprego. A razão é simples: Daniel faz parte do time de operação, imprescindível para o funcionamento do terminal. Ele é responsável pela programação do uso das plataformas de embarque por parte das 58 empresas que operam no complexo.
Especialista no cotidiano da Rodoviária, Daniel diz que o local tem três horários de pico diários: das 6h às 9h, das 12h às 15h e das 17h às 23h. Nas noites de sexta e nas manhãs de segunda, o terminal opera perto da capacidade máxima, estágio integralmente atingido na véspera e no retorno de feriados.
Histórias curiosas não faltam
Em meio a tantas idas e vindas, sobram histórias curiosas, vivas na memória de Daniel Bregunce. Segundo ele, os imprevistos mais comuns são dos passageiros que, apesar dos constantes avisos emitidos pelo sistema de som da Rodoviária em inglês, português e espanhol, perdem o ônibus por distração. Em situações do tipo, a direção do local entra em contato com a viação responsável pelo itinerário e solicita a emissão de um novo bilhete.
Mas há casos verdadeiramente pitorescos, como o de um cidadão que fugiu do hospital em que estava internado e queria viajar a Natal (RN), de onde veio, vestindo traje hospitalar e ostentando, no pulso, a pulseira de identificação na casa de saúde. Desencontros também já ocorreram, como quando um passageiro pegou um ônibus no Tietê desejando desembarcar no Rio de Janeiro (RJ), mas, por equívoco, acabou subindo em um coletivo com destino a BH. A confusão só foi descoberta na descida na capital mineira.
Há também os incontáveis casos de passageiros que embarcaram deixando para trás o filho ou os pais. Em situações desse tipo, não há outra saída: o ônibus é obrigado a retornar para recolher os “esquecidos”.
Entre as histórias reunidas, há aquelas em que os personagens centrais são animais, como as galinhas e os caranguejos abandonados no terminal porque não puderam ser transportados no ônibus.
À administração do terminal, também cabe ser mediadora de imbróglios entre passageiros e empresas de ônibus. A face conciliadora entra em cena quando aparecem usuários que querem transportar, como bagagem, objetos de grandes dimensões, como sofás ou máquinas de lavar.
Nessas situações, segundo Daniel, o desafio é convencer o passageiro de que a bagagem tem um limite de tamanho que precisa ser respeitado. Em caso de descumprimento, pode haver prejuízo aos demais viajantes, que ficam sem espaço para acomodar os pertences. Se não há acordo entre as partes, a rodoviária entra em contato com pessoas indicadas pelos passageiros para buscar o excesso de bagagem.

Obrigações imediatas
Ao assumir a concessão, em 2022, a Terminais BH se comprometeu a implementar uma série de melhorias imediatas para o usuário, como a disponibilização de internet gratuita e de tomadas para recarga de celulares, o aprimoramento da iluminação, a revisão de esteiras rolantes e elevadores, que passaram a ser disponibilizados em mais locais da Rodoviária..
O caderno de obrigações da concessionária também previa uma série de obras de requalificação do prédio. O prazo de 48 meses, previsto para algumas intervenções, termina em setembro deste ano. O documento tem as seguintes diretrizes:
- 24 meses para recuperação predial;
- 48 meses para recuperação estrutural;
- 48 meses para impermeabilização das áreas descobertas e jardins;
- 48 meses para recuperação da pavimentação e drenagem.
No estacionamento descoberto, cerca de um quarto da área já teve o piso trocado. Assim que a revitalização for terminada, a concessionária vai priorizar a reforma do piso em frente à entrada do prédio, onde os passageiros desembarcam ao chegar ao terminal.
Lá, segundo Vanessa Costa, trata-se de uma área crítica. Por isso, o novo pavimento terá de ser feito em menos tempo. A solução será a aplicação de uma manta líquida por cima do atual piso. Quando ocorrer a secagem, a área estará em condições de uso.
A CEO da concessionária afirma que tendo em vista o grande volume de obras previsto, a operação do terminal ainda não é lucrativa. De acordo com ela, os investimentos, especialmente nos primeiros 48 meses de gestão, são significativamente relevantes. Passado esse período, a concessão passará a ser rentável. A previsão é de que R$ 122 milhões sejam aplicados no empreendimento ao longo de 30 anos.
A Terminais BH é uma sociedade anônima de capital fechado formada por cinco empresas: Conata Engenharia, Infracon Engenharia e Comércio, Riêra Empreendimentos e Participações, RMG Construções e Empreendimentos e Petruska Participações.
Além da Rodoviária de BH, o consórcio tem a concessão de cinco terminais do Move Metropolitano, localizados em Santa Luzia, Vespasiano, Ribeirão das Neves, Justinópolis, Sarzedo e Ibirité. As estações são responsáveis por fazer a conexão das linhas locais com os itinerários que vão até BH.
Estes terminais são os que fazem a conexão das linhas locais com as que fazem a ligação com Belo Horizonte.
Também fazem parte do contrato as estações do Move Metropolitano Risoleta Neves, Portal Santa Luzia, Ubajara, Atalaia, Alvorada, Bernardo Monteiro, Nossa Senhora Copacabana, UPA Justinópolis, Aarão Reis, Oiapoque, Parque São Pedro, Canãa, Bosque Boa Esperança, Morro Alto, Cidade Administrativa, Serra Verde e Trevo Santa Luzia.
Congestionamento e transporte clandestino
Quando Marcio Lacerda defendeu a saída da Rodoviária da Região Central, apontou os congestionamentos ocorridos no entorno do terminal como motivação. A fila de veículos pode ser vista, sobretudo, nas noites de sexta-feira e no domingo, bem como perto dos feriados. Em todas essas ocasiões, o número de usuários aumenta exponencialmente.
Para amenizar o problema, Vanessa Costa explica que a Terminais BH tem trabalhado em parceria com a Guarda Municipal, responsável por fazer as alterações de trânsito nas vias próximas ao terminal, de forma a melhorar o fluxo.
Internamente, o consórcio procura racionalizar os pedidos de horários extras feitos pelas viações com o objetivo de comportar alta demanda por determinados itinerários. A ideia é alocá-los, sempre que possível, fora dos momentos de pico.
O transporte clandestino, que rouba das empresas de ônibus um percentual de receita que o Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado de Minas Gerais (Sindipas), estima em cerca de 30%, também é um problema para a Terminais BH. A concessionária recebe, das viações, R$ 9,77 por cada ônibus que utiliza as plataformas.
Conforme Vanessa Costa, a situação diz respeito mais às próprias empresas e às forças policiais que à concessionária. Segundo ela, quando há pedido por apoio, a Terminais BH fornece as informações solicitadas. Pelo sistema de som, de tempos em tempos, a gestora emite avisos para que os usuários deixem de utilizar o transporte clandestino.
Ludmilla de Aguiar é usuária regular da Rodoviária de Belo Horizonte, pois pelo menos de dois em dois meses vai visitar os pais na cidade Norte-mineira de Montes Claros. Ela afirma que não se importa com as pessoas que ficam nas duas vias de acesso ao terminal oferecendo viagens para diversas cidades do interior de Minas.
“Cada um tem que se virar com o que pode”, argumenta, ponderando que, por segurança, prefere o ônibus tradicional.
Apesar do uso contínuo, Ludmilla faz ressalva ao valor da passagem, que considera alto. Ela se considera observadora atenta das condições de funcionamento do espaço. Afirma que a oferta de serviços melhorou, com destaque para o wi-fi e para a possibilidade de recarregar o celular. Pontua também que dentro da rodoviária se sente segura, mas não diz o mesmo para o entorno.
Prova disso é que, quando tem de partir em ônibus noturnos, prefere chegar à Rodoviária de táxi — e não caminhando, como faz durante o dia.
“Mas aí não é com a rodoviária”, explica ela logo em seguida, antes de descer rapidamente para o embarque ao ouvir pelo sistema de som o chamado para seu ônibus.