A administração dos cemitérios públicos de Belo Horizonte gera prejuízos financeiros à prefeitura. É o que mostram dados sobre a inadimplência no pagamento de taxas inerentes a serviços como sepultamento, exumação e transferência de ossos. Embora os dados mais recentes sobre o custeio dos tributos sejam de 2019, os números apontam que a média de inadimplência nas quatro necrópoles municipais é de 41%.
Em meio à operação no vermelho, os quatro cemitérios públicos — Bonfim, Saudade, Consolação e Paz — lidam com problemas como infiltrações em algumas salas de velório e complicações causadas pelas chuvas. Como a parte externa de algumas unidades é gramada, os dias de temporais fazem com que as áreas verdes cresçam exponencialmente, gerando obstáculo aos visitantes que precisam caminhar entre os túmulos para prestar homenagens ou assistir a sepultamentos.
Segundo as estatísticas de inadimplência, disponibilizadas à época de um Procedimento de Manifestação Pública (PMI) aberto pelo Executivo municipal, para coletar, junto a empresas do setor cemiterial, ideias para a gestão dos equipamentos públicos, a maior taxa de descumprimento das obrigações financeiras estava no Cemitério da Paz: 46%. Na sequência, vinham Saudade (45%), Bonfim (43%) e Consolação (31%).
Valores envolvidos
O orçamento da Prefeitura de BH para 2026 reserva R$ 13,4 milhões para a gestão dos cemitérios. O montante também contempla os custos da Capela Velório Municipal Vicente Rodrigues de Paula, localizada no Barreiro.
O rol de taxas cobradas aos familiares das pessoas sepultadas tem 31 itens. Onze deles são referentes aos sepultamentos; oito, têm ligação com as exumações; cinco, com os velórios; sete, com as transferências de ossadas. Isso, sem contar recursos arrecadados com a venda de jazigos perpétuos, cujos preços variam de um cemitério para o outro.
O Fator pediu ao Executivo municipal o percentual atual de inadimplência nos quatro cemitérios municipais, mas não recebeu resposta. A reportagem também perguntou, igualmente sem retorno, se o valor das taxas cemiteriais cobre os gastos da administração pública com a manutenção das necrópoles.
Como estão os cemitérios de BH?
A reportagem visitou os cemitérios do Bonfim, da Saudade e da Paz para conferir o estado de cada um. Os problemas estruturais foram constatados no Bonfim, o mais antigo deles, onde há infiltrações nas salas de velório 5 e 9. Na Paz, por causa do período chuvoso, a grama estava alta.

No Bonfim, foi possível transitar entre todos os túmulos, pois o espaço entre as sepulturas não é gramado. Algumas estavam abertas, mas não se tratava de violação. Eram, na verdade, túmulos retomados pela prefeitura por falta de pagamento anual da Taxa de Manutenção dos Cemitérios Municipais (TMCM).
O muro do Cemitério do Bonfim passa por reformas, com pintura nova e instalação de concertina, barreira circular em metal com lâminas pontiagudas. A medida foi tomada a fim de evitar invasões e roubo de imagens.
Velas e animais mortos
A situação do Cemitério da Saudade é pior. Como os espaços entre um túmulo e outro são predominantemente gramados, as épocas de chuvas geram mato alto, obstáculo a ser superado por espectadores de sepultamentos.
A reportagem esteve no local pela primeira vez em 12 de fevereiro. Naquele dia, seis funcionários iniciavam a capina nas áreas de grama. Duas semanas depois, O Fator retornou à necrópole e constatou que o trabalho de poda havia sido concluído.
No ponto mais alto da Saudade, estavam velas e animais mortos, como parte do que parecia ser um ritual. A cruz existente no local, entretanto, tem os seguintes dizeres: “Área monitorada. Espaço sagrado protegido”.
Entre amor e ódio
Levantamento feito por O Fator mostra que ao menos há 15 anos a situação dos quatro cemitérios públicos da capital é tema de questionamentos feitos por vereadores.
Em 2012, a cobrança era pela melhoria da acessibilidade. Naquele mesmo ano, a então parlamentar Elaine Matozinhos defendeu a criação de um fundo municipal com recursos específicos para a manutenção das necrópoles, uma vez que o dinheiro das taxas cobradas pela prefeitura vai para o caixa único.
Em 2016, uma comissão de vereadores realizou uma visita para avaliar as condições estruturais dos cemitérios, a adequação do espaço físico de todos eles e a situação da infraestrutura de apoio, como lanchonetes e estacionamento.
Extorsão e omissão
Três anos depois, uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) chegou a ser aberta.
Uma das queixas era com relação à ação da “Máfia das Enxadinhas”, nome dado às pessoas que assediavam proprietários de jazigos para realizar, mediante pagamento, serviços de manutenção.
Em 2022, a Câmara voltou à carga, com nova visita técnica aos cemitérios municipais. O objetivo era averiguar denúncias de abandono dos túmulos. Na ocasião, o Diretor de Necrópoles da Fundação Municipal de Parques, Wellington Corrêa, explicou aos vereadores que a responsabilidade pela conservação dos jazigos era dos proprietários, não do município.
“Não temos o interesse de retomar a sepultura de ninguém, apenas o fazemos se for necessário”, afirmou Corrêa, à ocasião.
Espaço de sobra
Vistos do alto, os cemitérios de Belo Horizonte dão a impressão de lotação máxima. A percepção, contudo, é equivocada. Apenas na Saudade, há 8.857 jazigos disponíveis; na Paz, são 6.778. Na Consolação, menor necrópole pública da cidade, há 2.862 vagas disponíveis, ante 1.815 no Bonfim.
Juntos, os quatro terrenos têm área de 706 mil metros quadrados, espaço quatro vezes superior à extensão do Parque Municipal Américo Renné Giannetti, no hipercentro. Os cemitérios municipais têm 1.090.852 sepulturas, número quase equivalente à metade dos atuais 2,31 milhões de habitantes da capital mineira.
O maior dos quatro cemitérios municipais, com área de 289 mil metros quadrados, é o da Paz, na Região Noroeste. O menor é o da Consolação, na Região Norte, com 69 mil metros quadrados.
Um pouco de história
O cemitério da Paz é também onde está o maior número de pessoas sepultadas: 588.739, segundo informações de outubro de 2025 da Prefeitura de Belo Horizonte. Na lanterna, aparece o Cemitério da Consolação, com 84.027 inumados.
Paz e Consolação são os cemitérios públicos mais recentes, quando o modelo de necrópoles baseadas em jazigos suntuosos em mármore preto já havia perdido espaço para a era dos cemitérios-parque, de origem protestante e com rejeição à adoração de santos. Neles, o espaço destinado aos sepultamentos é gramado, com a identificação do falecido sendo feita apenas por uma pequena placa.
Mais antigos, Bonfim e Saudade seguem o modelo dos túmulos em mármore. O Cemitério do Bonfim nasceu em 1897 no bairro homônimo, perto da Região Central, junto com a fundação da capital. Lá estão sepultadas 222.455 pessoas. Na Saudade, que fica na Região Leste e também dá nome a um bairro, há 395.631 mortos.

Verticalização de corpos
A esta altura, o leitor deve estar indagando sobre como a área somada dos quatro cemitérios, embora corresponda a apenas 0,2% do perímetro total de BH, pode comportar quase a metade do total da população viva. A explicação é simples: um jazigo é como um prédio. As pessoas são sepultadas uma em cima da outra.
Na Consolação, essa média é de 10,4 pessoas por jazigo. Nos demais, a média é na casa de 12 por sepultura – 12,6 no da Saudade; 12,8 no do Bonfim e 12,4 na Paz.
As necrópoles têm alta rotatividade. Se o proprietário de um jazigo perpétuo deixar de pagar a taxa anual de manutenção por três exercícios ou se houver a desistência da titularidade, a prefeitura inicia o processo de retomada do espaço. A encampação também acontece quando o dono deixa de zelar pela conservação. Quando recupera a posse de um jazigo, a administração municipal retira os ossos e os entrega à família caso esta seja conhecida. Caso contrário, os restos mortais seguem para o ossário que existe em cada cemitério.
Hierarquia entre os cemitérios
Entre os cemitérios de Belo Horizonte existe uma certa hierarquia. No Bonfim, mais suntuoso, estão empresários de renome e grandes lideranças políticas, como os ex-governadores Raul Soares e Olegário Maciel, cujos mausoléus ficam na alameda principal do cemitério, logo depois de transposto o portão de entrada.
O Cemitério do Bonfim tem tombamento estadual, feito pelo Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) em 1977, e faz parte do roteiro turístico da capital.
Até 1942, todas as pessoas que morriam em Belo Horizonte eram enterradas ali. Naquele ano, a cidade ganhou o seu segundo cemitério, o da Saudade, criado para abrigar a população mais carente, que desejava obter um jazigo perpétuo, mas não tinha acesso à imponência do Bonfim.
Discrepância de preços
A diferença entre um e outro cemitério ainda perdura. No Bonfim, os jazigos perpétuos têm preços que variam de cerca de R$ 27 mil a R$ 47 mil. Na Saudade, o valor é quase cinco vezes menor: aproximadamente R$ 5,6 mil, custo igual ao da Consolação. No Cemitério da Paz, as sepulturas valem quase R$ 8,5 mil. A distância também está presente na taxa de velório, que começa em R$ 257,20 (Consolação e Saudade) e termina em R$ 970,25 (Bonfim).
Mesmo no Bonfim, há uma distinção de valores. Velórios ocorridos em salas em pior estado de conservação, com infiltrações de água no teto, são mais baratos. Nos espaços mais caros, além de melhor infraestrutura, há áreas reservadas, que permitem o repouso dos familiares em poltronas.
Esta é a primeira parte de uma série de O Fator, que trata da situação dos cemitérios em BH. A segunda será publicada nesta quarta-feira (11).