Há uma ideia circulando o mundo, que vai mudar tudo. O Brasil ainda não percebeu

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Foto: Imagem Ilustrativa

Não é a primeira vez. No século XVIII, foi o ouro. Em 1911, o ferro, como narra “A Concessão Itabira Iron“. Agora, são os minerais críticos. E o roteiro, mais uma vez, é o mesmo: o mundo descobre o que o Brasil tem, corre para cá e leva embora todo o valor.

Em 1911, o país tentou mudar esse padrão. Trouxe a indústria siderúrgica para agregar valor ao minério e industrializar a cadeia, mas não conseguiu. Mais de um século depois, produzimos cerca de 436 milhões de toneladas de minério de ferro por ano, somos o segundo maior produtor mundial, mas mantemos uma produção de aço estagnada em torno de 33 milhões de toneladas, desde o início dos anos 2000. Ou seja, exportamos o ingrediente e importamos o produto. A mesma história repete-se agora, com os minerais do século XXI.

Lítio para baterias de carros elétricos, terras raras para ímãs de turbinas eólicas, cobre para a infraestrutura de data centers, grafite para semicondutores, nióbio para a indústria aeroespacial. Sem eles, a transição energética para. A inteligência artificial para. O futuro para. Novamente, o mundo corre para o Brasil. E o que estamos fazendo a respeito?

A mineração combatida é essencial

Existe uma contradição que precisa ser enfrentada. Vivemos um momento em que a sociedade exige um mundo mais limpo, mais conectado, mais tecnológico. Carros elétricos, energia solar e eólica, internet em qualquer lugar do planeta, inteligência artificial, data centers, semicondutores. Tudo isso é desejado, defendido e celebrado. Mas tudo depende da mineração.

Quanto mais carros elétricos, mais lítio e cobalto. Quanto mais datas centers, mais cobre. Quanto mais energia renovável, mais minerais críticos. Um mundo livre de combustíveis fósseis não precisa de menos mineração. Precisa de mais. A questão não é “se” vamos minerar. A questão é: como, onde e em benefício de quem.

A China entendeu isso antes de todo mundo. Desde os anos 1990, construiu pacientemente o domínio sobre o refino, o processamento e a industrialização de minerais críticos. Hoje, controla mais de 60% do processamento global de terras raras, lítio, cobalto e grafite. Não por acidente ou sorte, mas por visão de futuro e estratégia.

O Brasil e a agenda nos EUA

Enquanto o mundo debatia sustentabilidade e outros temas laterais, a China construía o verdadeiro poder. Agora, os Estados Unidos, a Europa e o Oriente Médio correm para recuperar o tempo perdido, buscando novos parceiros fora da órbita chinesa.

Não é por acaso que minerais críticos e terras raras estavam na pauta do encontro entre Lula e Trump, em Washington, com o próprio ministro de Minas e Energia na comitiva brasileira. O Brasil concentra uma parcela gigantesca das reservas de que o mundo vai precisar, e o alinhamento estratégico com os Estados Unidos para construir cadeias produtivas fora da dependência chinesa é real e necessário.

Porém, basta ver o que aconteceu quando a aquisição da mineradora Serra Verde foi anunciada: uma transação que deveria ter sido celebrada como o tipo de alinhamento geopolítico que o país precisa, virou, imediatamente, um debate sobre soberania nacional. Essa reação é um sinal de alerta. A agenda global, a agenda nacional e a realidade local não estão se falando, e esse descompasso vai atrasar projetos, inflar custos e comprometer os resultados que os formuladores de políticas públicas estão prometendo.

Empresas e comunidades conectadas

O licenciamento ambiental para a mineração, no Brasil, leva de cinco a dez anos – às vezes, até mais. Os conflitos sociais se multiplicam à medida em que comunidades resistem a projetos que ou não entendem ou dos quais não se beneficiam diretamente. As pessoas querem inteligência artificial e energia limpa, mas não querem mineração em seus territórios, porque a única coisa que enxergam é o possível impacto.

Essa lacuna de percepção é um risco estrutural. Enquanto as empresas não conectarem a narrativa global ao progresso local concreto, cada novo projeto enfrentará os mesmos obstáculos, e a agenda que tanto importa ao país e ao mundo irá demorar cada vez mais para produzir bons resultados.

Reparem bem: muito se fala em licença social – a ideia de que a empresa entrega algo à comunidade e recebe, em troca, a permissão para operar. Mas esse conceito é parcialmente equivocado. Ele coloca empresas e sociedade em negociação permanente, sempre à beira do conflito, via de regra ideologizado e liderado por quem não entende.

Princípios fundamentais

O que precisamos é de uma conversa diferente, racional, sábia, baseada em progresso compartilhado. As mineradoras precisam crescer junto com seus territórios e populações, em qualidade de vida, prosperidade e oportunidade. Quando uma comunidade avança como parceira ao lado de um bom projeto, não é preciso litigar licença alguma. Há uma simbiose entre parceiros legítimos.

O Brasil tem o que todos procuram: reservas únicas de ferro, nióbio, lítio, terras raras, cobre e grafite; capacidade de produzir energia renovável em escala; biodiversidade, água e território. No novo tabuleiro geopolítico que se desenha, o Brasil deveria estar sentado entre os protagonistas. No entanto, o risco de repetir o erro histórico é real: ser, mais uma vez, o país que tem as maiores reservas, mas que cede espaço e exporta riqueza.

Sete princípios orientam uma nova forma de pensar a mineração, que estão emergindo nos principais centros de decisão do mundo.

Os pilares do Leaders for Change (L4C)

1) Velocidade soberana é poder: quem for mais rápido define sua posição no novo tabuleiro diplomático. 2) Narrativa constrói legitimidade: mineração não é extração e base da transição energética. 3) Extração sem industrialização é vulnerabilidade: agregar valor é condição de soberania. 4) Alianças definem resiliência: parcerias tecnológicas, financeiras e diplomáticas são indispensáveis. 5) Tecnologia limpa é diplomacia mineral: padrões ESG elevados são o passaporte para mercados globais. 6) Inteligência artificial é a nova fronteira da mineração: eficiência, agilidade e redução de riscos operacionais. 7) Compromisso com o progresso é poder no longo prazo: desenvolvimento territorial genuíno garante viabilidade operacional.

Tais princípios não são mera teoria ou retórica corporativa. São o norte de uma transformação que já está acontecendo em outros países, com outros minerais, outras empresas e outras estratégias. O Brasil ainda pode entrar nesse jogo. Mas a janela não ficará aberta para sempre, e a história não perdoa quem hesita tantas vezes.

É diante deste cenário que nasce o Líderes pela Mudança (Leaders for Change), ou L4C: uma coalizão ampla e plural, formada por mineradoras, instituições de ensino, meios de comunicação, governos, organismos multilaterais e agências de desenvolvimento, comprometida com uma pauta positiva para a mineração brasileira.

Velozes e valorizados

Que fique claro: não se trata de mais um fórum para debates – por vezes necessários, claro – ou espaço para promoção pessoal e comercial. É um movimento de ação para “humanizar” a mineração, transformar a percepção da sociedade e conectar o Brasil às cadeias globais, à geopolítica e à agenda multilateral.

O debate global está construído. O que falta, agora, é construir a agenda nacional: como o Brasil se posicionará e se beneficiará dessa transformação, a partir de como a relação local como os territórios – onde a mineração acontece – progride simultaneamente ao progresso do próprio país. Sem essas agendas conversando, o potencial do Brasil nessa corrida continuará sendo muito mais promessa que realidade.

O ouro veio e foi. O ferro veio e ficou – mas o real valor vai embora. Os minerais críticos estão aqui e os compradores estão chegando. Desta vez, o Brasil pode fazer diferente. Precisa fazer diferente. A corrida já começou, mas ainda estamos amarrando o tênis. O L4C não permitirá chegarmos por último outra vez.

Por: Thiago Toscano | Porta-voz (Leading Voice) – Líderes pela Mudança (Leaders for Change) L4C

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Encontro contou com a presença de dirigentes do partido e parlamentares do Congresso