Lideranças com DNA da mineração e da governança ambiental tentam redefinir o papel das associações em Sarzedo

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Em Sarzedo, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, uma associação recém-criada tenta responder a um dilema que marcou a história recente da mineração em Minas: é possível conciliar desenvolvimento econômico, justiça social e proteção ambiental quando quem senta à cabeça da mesa conhece, por dentro, tanto a lógica do mercado quanto os limites do território. À frente da Associação O Libertador, o economista Thiago Coelho Toscano e o especialista em governança ambiental Alexandre Guimarães encarnam essa aposta – e ajudam a ilustrar o que mudaria se mais organizações da sociedade civil fossem presididas por gente com esse tipo de trajetória.

A Associação O Libertador foi constituída como organização da sociedade civil sem fins lucrativos com o propósito de atuar em desenvolvimento sustentável, educação, cidadania e participação social, reunindo profissionais que decidiram colocar sua experiência a serviço de soluções para problemas coletivos. Não se trata apenas de voluntariado bem-intencionado: o release institucional enfatiza que a entidade combina visão estratégica global de sustentabilidade e desenvolvimento, representada por Thiago Toscano, com a experiência prática de governança ambiental territorial de Alexandre Guimarães.

Esse encontro entre leitura global e atuação enraizada no território é apresentado como um dos principais diferenciais da associação. Em vez de separar “empresa” de um lado e “comunidade” de outro, O Libertador nasce justamente numa zona de interseção, onde quem conhece a lógica do capital também se dispõe a sentar em conselhos municipais, enfrentar licenciamento ambiental e responder à pressão social por resultados concretos.

Presidente da Associação O Libertador, Thiago Toscano construiu carreira ligada a desenvolvimento econômico, sustentabilidade corporativa, governança e formulação de políticas públicas. Hoje integra fóruns internacionais como a Future of Mining Coalition e a World Climate Foundation, que reúnem lideranças globais em torno de uma economia de baixo carbono e da revisão dos modelos de desenvolvimento.

Sua trajetória ganhou reconhecimento no Milken Institute, organização global de pesquisa e políticas públicas que o descreve como liderança em mineração sustentável. Nesse campo, ele tem trabalhado na implementação de estruturas de ESG alinhadas aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU e aos padrões da International Finance Corporation (IFC), em diálogo com organismos como Banco Mundial e BID.

Como presidente da Itaminas, Toscano também assumiu publicamente a defesa de uma mineração voltada à descarbonização, posicionando a empresa na agenda do chamado “minério verde”, tema caro à transição energética global.

Em 2026, em Barcelona, participou de agenda promovida pela Comissão Econômica da ONU para a Europa (UNECE), encontro que reforçou o reposicionamento da companhia como ator que busca conciliar crescimento econômico, responsabilidade socioambiental e legado positivo para comunidades afetadas.

Num cenário em que parte do setor mineral ainda resiste a incorporar de fato padrões mais rigorosos de transparência e reparação, o histórico de Toscano mostra como quadros oriundos do setor produtivo podem, ao menos em tese, qualificar o debate ambiental e social quando decidem colocar esse capital técnico a serviço de uma organização da sociedade civil.

Se Toscano traz o olhar de quem opera nos grandes fóruns globais de clima e finanças, Alexandre Guimarães encarna o trabalho de base da governança ambiental e territorial.

Com trajetória reconhecida em gestão ambiental, participação social e formulação de políticas públicas locais, ele atua na zona em que conflitos entre expansão econômica, preservação ambiental e modo de vida das comunidades se materializam em decisões muito concretas.

Alexandre esteve presente nas discussões ligadas à COP30, contribuindo para colocar na mesa temas de sustentabilidade, desenvolvimento regional e desafios climáticos.

No cotidiano, sua experiência passa por conselhos e instâncias de governança, como o Conselho Gestor do Parque Natural Municipal Cachoeira de Sarzedo – unidade de conservação de proteção integral voltada à proteção de remanescentes de Mata Atlântica, patrimônios históricos e ecossistemas sensíveis –, o Conselho Municipal de Desenvolvimento Ambiental (CODEMA) de Sarzedo e o Conselho Municipal de Gestão e Desenvolvimento Econômico de Brumadinho.

Ao longo da carreira, acumulou participação em processos de licenciamento ambiental, gestão territorial, proteção ambiental e relacionamento institucional entre sociedade civil, poder público e setor produtivo.

Em outras palavras, conhece na prática a tensão entre prometido e entregue, entre condicionante de licença e realidade de campo – um tipo de bagagem que costuma faltar quando associações são comandadas apenas por líderes simbólicos, sem trânsito técnico ou político.

Quando a participação deixa de ser só direito e vira dever

Os dirigentes da associação insistem em um ponto: a participação social não é apenas um direito democrático, mas também um dever.

A legislação brasileira garante a qualquer cidadão a possibilidade de criar e gerir associações sem fins lucrativos voltadas a finalidades lícitas, sem restringir a origem profissional dos dirigentes, sejam eles do setor privado, da academia, do poder público ou de outras áreas.

A mensagem embutida é clara: se a lei não impede que quadros altamente qualificados ocupem esses espaços, o que falta é vontade – ou cobrança – para que mais pessoas com experiência em governança, sustentabilidade, desenvolvimento econômico e gestão ambiental assumam, de fato, o comando de entidades da sociedade civil.

Em vez de questionar quem pode participar, o desafio passa a ser aumentar o número de lideranças dispostas a colocar conhecimento, redes e capacidade de articulação a serviço da transformação social e ambiental.

Nesse sentido, a própria existência da Associação O Libertador funciona como um contraponto a uma lógica ainda frequente: a de organizações frágeis, muitas vezes criadas apenas para cumprir formalidades em conselhos ou acessar editais, sem corpo técnico robusto, nem compromisso continuado com o território.

O que acontece quando esse know-how desce para a base

O discurso sobre currículos e fóruns internacionais se traduz, no chão de Sarzedo e região, em iniciativas como a execução local do Programa 7 Gerações, em parceria com Instituto Itaviva, Itaminas e Prefeitura. Hoje, o programa atende 120 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, entre 6 e 14 anos, oferecendo educação integral em cinco dimensões: intelectual, física, cultural, emocional e social.

A proposta vai além do reforço escolar: busca formar cidadãos conscientes, fortalecer vínculos familiares e comunitários e abrir oportunidades em contextos marcados por desigualdade e impacto ambiental acumulado. A inauguração da nova sede do programa, em abril de 2026, ampliou a capacidade de atendimento e consolidou um espaço dedicado ao desenvolvimento integral dos beneficiários.

O ecossistema que circunda a associação inclui ainda projetos como o Bom de Bola, que atende 120 crianças, e o OJJAMPS, com modalidades de ginástica artística, futebol masculino e feminino, vôlei, artes, circo, balé e jiu-jítsu, alcançando mais de 750 crianças em Sarzedo e Brumadinho.

A lógica é a mesma: usar a experiência de gestão, articulação institucional e leitura de risco para estruturar programas com metas, métricas e perspectiva de continuidade – em vez de ações pontuais que começam e terminam em calendário de campanha.

E se fosse assim em todas as associações?

A combinação entre a visão global de Thiago Toscano e a experiência territorial de Alexandre Guimarães não é garantia automática de soluções justas para conflitos ambientais e sociais – e, num estado marcado por tragédias recentes, a vigilância sobre qualquer ator ligado à mineração continua sendo condição básica para o debate público.

Mas o caso da Associação O Libertador ajuda a projetar um cenário no qual mais entidades da sociedade civil seriam comandadas por pessoas que entendem, tecnicamente, os temas que estão em jogo e assumem responsabilidade sobre o território em que atuam.

Se conselhos ambientais, associações de bairro, coletivos de juventude e organizações socioambientais contassem sistematicamente com lideranças capazes de transitar entre COP, Banco Mundial, conselhos municipais e reuniões de comunidade, o patamar da discussão sobre desenvolvimento regional e justiça climática seria outro.

Em vez de espaços ocupados por figuras decorativas ou por representantes sem preparo, a sociedade civil se apresentaria com quadros que dominam linguagem técnica, conhecem a legislação, têm experiência de campo e se dispõem a prestar contas.

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Encontro contou com a presença de dirigentes do partido e parlamentares do Congresso