Minas Urbano: conheça os professores que transformam esporte em política de cidadania

professores do projeto minas urbano em bh
Divulgação/Minas Urbano

Mais do que movimentos, fundamentos e técnicas de esporte, uma iniciativa mineira usa a prática esportiva para formar cidadãos. É o Minas Urbano, que tem como ponto de encontro em Belo Horizonte o Centro Mineiro de Esportes Urbanos. 

O espaço localizado na avenida Cristiano Machado apresenta a crianças e adolescentes da capital as modalidades do basquete 3×3, escalada e break dance. No dia a dia das aulas, os esportes urbanos se tornam uma ferramenta de convivência, cidadania e transformação social.

A iniciativa do Governo de Minas em parceria com a Codemge mobiliza profissionais de educação física para garantir a qualidade das aulas em todas as modalidades. Tudo começa com um planejamento anual que é dividido em etapas para garantir a inclusão e respeitar a individualidade de cada aluno.

“A gente faz um plano de aula pensando justamente nisso. Tem ciclos dentro desse plano para que o aluno que entre em março ou em junho, por exemplo, tenha a mesma oportunidade de aprender que os outros”, explica o professor Gabriel, responsável pelas aulas de basquete 3×3 no turno da tarde.

Aprender brincando

Junto com o planejamento, um outro desafio: falar a língua da juventude. Para isso, a aposta dos professores é a diversão como ferramenta de ensino. “Claro que a gente está preocupado com os princípios de basquete, com os fundamentos, estratégias, princípios técnico-táticos e físicos. Mas, na minha visão, a diversão é muito importante e acaba subsidiando os outros aprendizados”, ressalta Gabriel.

Na estação ao lado, onde fica a parede de escalada, a mentalidade é a mesma. “Existe muito uma filosofia do aprender brincando. Às vezes eu vou pedir para eles fazerem o que eu quero que eles façam. Outras vezes, eu coloco uma brincadeira que, sem perceber, eles vão acabar aprendendo sobre o esporte, vão acabar se desenvolvendo”, explica o professor Arthur.

Para trabalhar essa metodologia, os professores aproveitam a empolgação inicial dos alunos com o esporte. Os equipamentos de qualidade e a própria dinâmica dos esportes costumam ser o primeiro atrativo e, a partir deles, os professores do Minas Urbano vão se adaptando às especificidades de cada aluno. 

“O primeiro contato com os meninos é um contato de experimento. Então eles chegam mostrando que realmente nunca viram esse movimento, mas desperta um interesse”, explica o professor de break dance, Marden. 

Segundo ele, a curiosidade já visível no rosto dos alunos ajuda a desenvolver o contato para as aulas que vão se seguir. “Ele já fica interessado vendo aquelas acrobacias, movimentos de cabeça no chão, saltos. Então isso desperta interesse”, pontua. 

A partir daí, os mais de 300 alunos que passam pelo Centro Mineiro de Esportes Urbanos embarcam em uma jornada que vai muito além do esporte. Muitos têm ali as primeiras lições de cidadania, disciplina e determinação. Prova disso é um dos “fundamentos” que a maioria dos professores destaca.

Aprender a cair

Um ponto central do Minas Urbano é a prova de que o aprendizado ultrapassa as linhas da quadra. Em quase todas as aulas, crianças e adolescentes precisam aprender a cair. 

“No primeiro contato, em toda aula experimental, o primeiro aprendizado dos alunos é como descer do muro de escalada. Antes de aprender a subir, a ter técnicas mais avançadas, é foco em como descer, para eles terem confiança e segurança em escalar”, explica Arthur. 

No break dance, os pequenos aprendem a transformar a queda em algo mais. O professor explica: “Essa queda, você sai em outro movimento. Então não foi literalmente uma queda, foi uma transição. Então isso desperta interesse e você pode ver também que está explorando a capacidade corporal e ultrapassando nossos limites através de movimentos”.

A etapa é importante para o desenvolvimento no esporte, mas também uma lição valiosa para a vida. “Essa mentalidade e disciplina de atleta é um ganho tremendo como cidadão. Como a gente forma pessoas mais corajosas, mais disciplinadas, que realmente não vão parar em desafios”, defende Juliana Cunha, coordenadora técnica do Centro Mineiro de Esportes Urbanos. 

Juliana, que também é atleta do basquete, enxerga um papel ainda mais importante do esporte nas vidas de jovens das gerações mais novas: “Hoje o menino está jogando um video game e, se ele está perdendo, ele não vai até o final. Ele sai do jogo e vai entrar de novo para ver se ganha. Aqui ele aprende que num dia a gente perde e no outro a gente ganha”.

Um espaço seguro para crescer

A combinação entre esporte, acolhimento e convivência transformou o Centro Mineiro de Esportes Urbanos em um espaço que os próprios alunos reconhecem como seguro e acolhedor. Isso porque os professores também estão abertos para lidar diariamente com emoções, inseguranças e desafios pessoais das crianças e adolescentes.

“São crianças, muitos sentimentos deles são novos. Às vezes eu percebo que muitos não sabem lidar com a frustração e com a raiva. E aí eles já fecham a cara, alguns choram, cada um lida de um certo jeito”, pontua Isabela, professora de escalada do turno da tarde. 

Para encarar esse desafio, a professora recorre a uma tática infalível: a empatia. “Eu tento me colocar no lugar deles, mesmo que sejam crianças. Eu me coloco no lugar e penso: ‘talvez não seja tão legal sentir isso’. Aí eu brinco, tento ser uma criança mesmo. Acho que a brincadeira, deixar tudo mais lúdico, é o mais legal e mais importante para eles”, avalia. 

Os frutos desse esforço vão aparecendo aos poucos no dia a dia. “Tem uns meninos que são mais retraídos, a gente vê que chegam tímidos, sem nem escutar a voz, e de repente eles vão se soltando, criando pertencimento com o lugar. Eles vão se sentindo em casa e isso é uma evolução muito legal de se ver”, avalia Juliana. 

“Tem menina que chega aqui no primeiro dia de aula e até chora. Depois você vê a menina lá no topo da parede [de escalada]. Essa evolução é incrível, realmente saber que o esporte vai além do dia a dia aqui e agrega em outras questões da criança, com a família, na escola. Isso é bom demais”, reforça a coordenadora. 

O ambiente criado pelas equipes do projeto faz diferença também na relação entre os próprios alunos. “Todo mundo aqui é como se fosse uma família”, resume Ana Clara, aluna das aulas de escalada. “Todo mundo te recebe muito bem.”

Disciplina dentro e fora das quadras

Para os educadores do Minas Urbano, o principal legado das aulas vai além do esporte praticado dentro do centro. A disciplina, a persistência e a convivência são habilidades levadas para outras áreas da vida.

“A ideia do esporte nessa idade é encantar as crianças e fazer elas se apaixonarem pela prática de atividade física”, resume o professor Álvaro José.

As viagens do Minas Urbano

Com quase 400 alunos matriculados no Centro Mineiro de Esportes Urbanos, o Minas Urbano segue ampliando o acesso aos esportes urbanos e fortalecendo vínculos entre juventude, educação e cidadania em Belo Horizonte.

O mesmo acontece no Minas Urbano itinerante, outro braço do projeto idealizado pelo Governo de Minas em parceria com a Codemge. Ao longo das viagens pelo interior de Minas, crianças e adolescentes aprendem as modalidades com professores do projeto e com monitores contratados em cada cidade. 

O formato é uma maneira de garantir o mesmo padrão de qualidade em todos os pontos atendidos. Além disso, fomentar a economia local e levar oportunidades que não se limitam somente às crianças e adolescentes beneficiadas.

Apenas na modalidade itinerante, o Minas Urbano já acumula mais de 83 mil atendimentos em 28 cidades impactadas. Lá, as modalidades de escalada, break dance e basquete 3×3 ganham a companhia do skate. Até o final deste ano, as viagens do projeto ainda vão atender mais 50 municípios. A meta é concluir mais de 150 mil atendimentos. 

Legado

Nos próximos episódios desta websérie, vamos mostrar o outro lado desta moeda: o legado do Minas Urbano sob o olhar das crianças, adolescentes e da comunidade que a iniciativa foi criada para servir.

Jornalista formada pela PUC Minas, com especialização em Gestão de Mídias Digitais, Business Intelligence e Inteligência Artificial pela ESPM. Ao longo de mais de 15 anos de carreira, liderou projetos digitais em veículos como Rede 98, Record TV e BHAZ e também atuou em marketing digital em agências como a Máquina.

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Encontro contou com a presença de dirigentes do partido e parlamentares do Congresso