Antes de chegarem à quadra, ao muro de escalada ou à pista de dança, os alunos do Minas Urbano convivem em casa. É na rotina diária com os pais que muitos dos efeitos do projeto se tornam visíveis pela primeira vez. E os relatos de quem acompanha as crianças fora do projeto ajudam a entender o alcance, muitas vezes invisível, de uma política pública que vai muito além do esporte.
Mais atenção aos estudos, menos tempo de tela e conversas que fluem com mais facilidade são apenas alguns dos avanços citados por quem acompanha de perto os jovens beneficiados. O Minas Urbano, iniciativa do Governo de Minas em parceria com a Codemge, já conseguiu impactar centenas de crianças e adolescentes com aulas gratuitas de escalada, basquete 3×3 e break dance em um ponto fixo em Belo Horizonte.
Esse local é o Centro Mineiro de Esportes Urbanos, onde quase 400 alunos estão matriculados regularmente, distribuídos em turmas por faixa etária, que ocupam o espaço ao longo de toda a semana. Além dos alunos matriculados, o projeto também mantém um relacionamento direto com as famílias, que acompanham de perto a evolução dos filhos dentro e fora das quadras, e com as escolas, por meio do trabalho de uma assistente social.
Acolhimento no primeiro contato
Esse acompanhamento começa antes mesmo da primeira aula. É comum que os próprios pais procurem a coordenação para entender o funcionamento das turmas, fazer a matrícula e, depois, voltar para contar como o filho está se desenvolvendo.
“Um dos relacionamentos que eu tenho aqui é com os pais. Eu recebo, muitas vezes, os pais tanto para fazer a inscrição, a matrícula, quanto para conversar e ver como está o andamento da criança”, explica Juliana Cunha, coordenadora técnica do Centro Mineiro de Esportes Urbanos.
“Eu, como atleta de basquete, muitas vezes vejo um menino que chega aqui, que não sabe arremessar, e, de repente, depois de algumas aulas, vê essa evolução. É uma satisfação tremenda”, conta Juliana.
Segundo ela, o ganho mais significativo nem sempre aparece dentro do esporte. “Os pais trazem para a gente não só a evolução dentro do esporte, mas também na escola. Muitas vezes, eles acabam focando mais. Na hora que chegam lá para estudar, têm um foco maior. Os meninos acabam diminuindo as telas”, descreve.
Todo mundo ganha
Esse tipo de mudança é confirmado por quem vive o dia a dia com as crianças. Aloma Izidoro é mãe de Rafael, aluno do basquete 3×3, e percebeu uma transformação na organização do filho desde que ele começou as aulas no Centro.
“Consigo ver que ele está uma criança mais organizada, no sentido de que se preocupa em fazer o dever de casa um dia antes, já sabe o material que tem que separar para vir, separa o próprio uniforme. Tem orgulho do tênis dele: ‘esse é meu tênis de basquete’. Acho que toda essa disciplina que o esporte traz é o que faz diferença para a vida dele”, avalia.
Além de mais organização e disciplina na rotina do filho, ela se alegra ao perceber que as aulas no Minas Urbano oferecem a ele um protagonismo inédito na relação com a família: “A gente já tem um vínculo muito forte, e isso aumenta ainda mais esse vínculo. Desde pequeno, ele já acompanha a gente em campeonatos; agora, ele se torna parte disso. Esse é o momento dele: ele sai do papel de espectador para participar de fato”.
Já Dan de Oliveira Lima, pai de Júlia, aluna de escalada, notou outro tipo de mudança de comportamento em casa. “A gente percebeu um pouco mais de atenção, um pouco mais de persistência, porque a escalada tem muito isso: você sobe, tenta, vai de novo. Isso a gente já percebeu como um reflexo desse trabalho do esporte em casa também”, relata.
Débora Gomes e Fábio, pais dos gêmeos Rafael e Gabriel, também alunos de escalada, e de Daniel, do basquete 3×3, notaram ganhos físicos visíveis em poucos meses de aula. “Melhorou a coordenação motora, a disposição, a força dos meninos, especialmente no Gabriel, que tinha menos coordenação. Os dois estão bem legais, com muita força”, contam.
Um assunto em comum
Para algumas famílias, o esporte se tornou também uma ponte de aproximação. É o caso de Taís e Leandro Acácio, pais de Nicolas e Juan, que jogam basquete 3×3 no Centro. Os dois contam que o esporte ajudou a abrir o diálogo com o filho mais velho, que sempre foi mais reservado.
“Ele é mais tímido, a conversa dele era muito monossilábica. Com o basquete, a gente tem um assunto em comum. Traz mais a questão da conversa, do diálogo. Eu falo assim: ‘Eu tô triste hoje, a gente podia bater uma bola’, aí ele: ‘vamos’”, relata Taís.
Já o irmão mais novo encontrou no esporte uma ferramenta diferente. “O outro melhorou a questão da rotina, porque, como ele tem TDAH, vem para cá, gasta energia e aí consegue se concentrar mais na escola. E na questão do autocontrole também. Tem as regras, os limites que o próprio jogo tem, e ele aplica isso em casa, na escola”, completa Leandro.
Acesso transformador
A localização, a grade de horários e a gratuidade das aulas têm um peso particular no contexto de muitas famílias atendidas pelo Centro. Para a equipe do Minas Urbano, ampliar o acesso a esportes urbanos é também abrir novas portas de oportunidade para crianças e adolescentes, que muitas vezes não teriam outra forma de praticar essas modalidades.
“O esporte hoje tira das ruas, né? Muitas vezes, existe essa questão das drogas, do tráfico. A gente sabe de muitos alunos nossos aqui que, depois que vieram, começaram a ter outros vínculos no próprio esporte que praticam”, avalia Juliana Cunha.
A coordenadora lembra ainda que essa mudança de rotina costuma vir acompanhada de uma transformação mais ampla na forma como os alunos se relacionam com o espaço e com os colegas.
“Tem uns meninos que são mais retraídos. A gente vê que chegam tímidos, sem a gente nem escutar a voz deles, e, de repente, vão se soltando, criando pertencimento com o lugar. Eles vão se sentindo em casa, e isso é uma evolução muito legal de se ver”, descreve.
‘Uma dádiva’
Izabella Marra, professora de escalada, reforça a importância de democratizar um esporte que, historicamente, tem custo elevado e pouco acesso popular. “Não é todo mundo que teve acesso a isso. Acho muito importante eu ter esse olhar de cuidado e também de entender isso. Acho que todo mundo devia ter acesso a qualquer tipo de esporte. É uma dádiva mesmo”, diz.
Para Juliana, o ganho vai além da prática esportiva e se conecta diretamente à formação cidadã que o projeto busca oferecer: “Essa mentalidade de atleta, essa disciplina de atleta, isso tudo é um ganho tremendo como cidadão. A gente forma pessoas mais corajosas, mais disciplinadas, que realmente não vão parar diante dos desafios”.
“Hoje, o menino está jogando videogame e, se está perdendo, não vai até o final; ele sai do jogo para entrar de novo e ver se ganha. Aqui, ele aprende que, em um dia, a gente perde e, no outro, a gente ganha”, completa a coordenadora.
Um dia de festa
Esse senso de comunidade construído ao longo do ano ganha forma mais visível durante os festivais promovidos pelo Centro Mineiro de Esportes Urbanos. Nos eventos, alunos disputam gincanas e se apresentam às famílias, que acompanham de perto a evolução dos filhos e também interagem entre si.
Além dos festivais internos, voltados apenas para alunos matriculados, o Centro também promove encontros abertos à comunidade, em que amigos e familiares podem conhecer o espaço e experimentar as modalidades. “A gente teve um festival de encerramento no final do ano, em que recebemos amigos dos nossos alunos, familiares, e eles puderam, inclusive, experimentar os nossos esportes”, conta Juliana.
No início de junho deste ano, em clima de Copa do Mundo, os alunos de todas as modalidades e horários se reuniram novamente para uma competição com ares de confraternização.
“Acho muito interessante misturar todos os esportes, criar na meninada esse sentimento esportivo de competição, saber que ganha e que perde. Isso é muito interessante e reflete na vida deles, com certeza”, avalia Dan, que participou do evento pela primeira vez.
O sentimento de pertencimento e comunidade também alcança os pais. “O fato de ter um timão, por cores, deixa tudo mais legal: a gente vai ali, torce no basquete, vem aqui, torce no break, já dei umas gritadas torcendo pros filhos dos outros na escalada”, relata Taís.
Aloma também viveu a experiência de ver o filho participar do festival por conta própria, depois de anos acompanhando jogos como espectador. “Estou muito alegre em ver meu filho participando pela primeira vez. É muito legal ver as outras modalidades, todas juntas. Tá muito legal a integração de todo mundo”, conta.
Para Juliana, esses encontros são uma peça importante na construção do sentimento de pertencimento que o Centro busca criar com as famílias. “É um dia festivo, é um dia para a gente confraternizar, para a gente estar junto com a família, para a gente criar realmente esse vínculo, esse pertencimento aqui no CT”, resume a coordenadora.
As faces do Minas Urbano
O Centro Mineiro de Esportes Urbanos é apenas uma das frentes do Minas Urbano. Além das atividades realizadas em Belo Horizonte, o projeto percorre diversas regiões do estado por meio de uma arena itinerante dedicada aos esportes urbanos.
Juntas, as iniciativas ampliam o acesso ao esporte e alcançam milhares de jovens mineiros. Em cada cidade visitada e em cada aula realizada no Centro, o projeto busca oferecer algo que vai além da prática esportiva: oportunidades de crescimento, convivência e descoberta.
No próximo episódio desta websérie, vamos mostrar o legado que o Minas Urbano deixa para o futuro de Belo Horizonte e das comunidades impactadas pelo projeto.