Uma caixa de som com músicas de hip hop. O ruído inconfundível de uma quadra de basquete. Para completar, uma área de escalada que enche a parede de cores e portas sempre abertas para crianças que enchem o espaço de vida. Essa combinação ajuda a traduzir, na prática, uma política pública que aposta na cultura urbana para alcançar crianças e jovens: o Minas Urbano, iniciativa do Governo de Minas em parceria com a Codemge.
Na avenida Cristiano Machado, em Belo Horizonte, está o Centro Mineiro de Esportes Urbanos. O espaço do projeto apresenta a milhares de crianças as modalidades da escalada, basquete 3×3 e break dance.
Além do Centro, inaugurado no segundo semestre de 2025, o Minas Urbano se espalha por Minas Gerais com um espaço itinerante. A estrutura viaja por várias regiões do estado com estações especiais dedicadas a cada modalidade. Durante quatro dias, crianças de cidades do interior conseguem experimentar o basquete 3×3, a escalada e o break dance. Além dos esportes, o espaço também promove um cinema ao ar livre e outras oportunidades de lazer e interação para os moradores.
A iniciativa movimenta as comunidades locais, com a ajuda de monitores contratados em cada cidade, e deixa um legado. Em cada região por onde passa, o Minas Urbano promove a revitalização de um equipamento da cidade. Reformas em quadras, ginásios e praças para que os moradores possam continuar o contato com o esporte e a interação comunitária.
Antes de atletas, cidadãos
O objetivo central do projeto é simples: promover a formação cidadã e a inclusão social por meio da popularização de modalidades que conversam diretamente com o cotidiano urbano.
As práticas selecionadas foram algumas das que mais têm ganhado notoriedade recentemente, especialmente entre o público mais jovem. Escalada, break dance e basquete 3×3, estilo de competição que estreou oficialmente nas Olimpíadas de 2020, em Tóquio, e consiste em uma versão “compactada” do basquete tradicional.
Em pouco tempo de atendimento, o projeto já dá frutos visíveis. As turmas de alunos mais velhos do basquete 3×3 já participam de torneios pelo Brasil. Os pais de alunos de todas as idades também citam mudanças no comportamento e nos interesses de vários deles.
Novidade no ar
Neste espaço, crianças têm o primeiro contato com modalidades de esporte até então desconhecidas. E, por meio delas, começam a entender melhor sobre a própria saúde, além de desenvolver noções mais claras de colaboração, dedicação e disciplina.
É o caso das irmãs Júlia e Jeovana, de 12 e 10 anos, respectivamente, que trocaram as aulas de natação pelo basquete 3×3. Elas decidiram ir para a modalidade que consideram mais divertida pela dinâmica das aulas e pela oportunidade de se exercitarem mais.
Já os pequenos Bernardo e Gabriel, de apenas 7 anos, chegam ao Centro no primeiro horário para as aulas de break dance. Um deles chegou a experimentar outras modalidades no espaço, mas preferiu trocar. Descobriu no break dance uma oportunidade de se divertir com movimentos mais desafiadores enquanto acompanha o irmão.
Adriana Aguilar, responsável pelos pequenos, vê nas aulas uma oportunidade de garantir a prática de exercícios na rotina deles. Além disso, ressalta a ajuda com o tratamento para Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade de um deles. “São duas crianças que eu tenho. Uma tem TDAH e tem sempre indicação de muita atividade física e o break dance pra eles está sendo excelente”, conta.
O idioma da nova geração
“Essas são modalidades urbanas e olímpicas. Então nós temos aqui mais de 1200 crianças atendidas e os esportes urbanos são uma forma de conversar com a juventude, essa geração mais nova, que pratica o skate, o surf nas cidades do litoral, o break dance, o basquete 3×3, o grafite”, conta Vicente Costa, gerente geral do Centro Mineiro de Esportes Urbanos. “É todo um movimento ligado à periferia e é muito importante fazer essa conversa”.
Segundo Vicente, no Centro a regra é simples: o aluno chegou, está matriculado na escola, está dentro. Foi o que aconteceu com cada um dos 358 alunos regulares que o Centro Mineiro de Esportes Urbanos atende atualmente. São turmas divididas por faixa etária com aulas que acontecem ao longo de todo o dia, de segunda a quinta-feira.
‘Os homens se educam entre si’
O espaço do Minas Urbano traz ainda uma oportunidade de crescimento para os monitores. Para cada uma das modalidades, as turmas contam com a supervisão de um professor formado em educação física e com experiência na área e um estagiário. Na interação com os alunos, eles encontram pequenos momentos importantes para o próprio desenvolvimento.
“Aqui a gente recebe todo tipo de criança. Tem criança que tem laudo, tem criança que não tem laudo, tem criança que tem inseguranças, que tem medo, que sofre opressões, que sofre bullying”, conta Rodrigo, professor de break dance do Centro Mineiro de Esportes Urbanos.
O desafio para ele é construir pontes com os alunos: “É entender como eu consigo chegar a essa criança para ela poder se alimentar do break, se alimentar do basquete, da escalada, e sair daqui um ser humano diferente”.
78 viagens
O mesmo acontece no Minas Urbano itinerante, outro braço do projeto idealizado pelo Governo de Minas em parceria com a Codemge. Ao longo das viagens pelo interior de Minas, crianças e adolescentes aprendem as modalidades com professores do projeto e com monitores contratados em cada cidade.
O formato é uma forma de garantir o mesmo padrão de qualidade em todos os pontos atendidos. Além disso, fomentar a economia local e levar oportunidades que não se limitam somente às crianças e adolescentes beneficiadas.
Apenas na modalidade itinerante, o Minas Urbano já acumula mais de 83 mil atendimentos em 28 cidades impactadas. Lá, as modalidades de escalada, break dance e basquete 3×3 ganham a companhia do skate. Até o final deste ano, as viagens do projeto ainda vão atender mais 50 municípios. A meta é concluir mais de 150 mil atendimentos.
Olhar 360
No Centro Mineiro de Esportes Urbanos, além dos quase 400 alunos matriculados regularmente, também são impactados estudantes de escolas que promovem visitas guiadas ao espaço. O projeto também alcança pais e responsáveis, que contam com ações voltadas para a comunidade e um acompanhamento das crianças.
“Nós temos uma assistente social que acompanha tudo. Ela visita as escolas dos alunos que estão matriculados aqui. Então a gente vai nas escolas, procura entender como é, e fazemos um contato constante com os pais”, explica Vicente.
Pais e responsáveis também contam com momentos de descompressão, um cantinho da leitura e um festival aberto para a comunidade. No evento, conseguem testemunhar em primeira mão a evolução das crianças e adolescentes do Minas Urbano.
“É um espaço que a gente quer que a comunidade de Belo Horizonte, principalmente do entorno aqui da avenida Cristiano Machado, tenha um sentido de pertencimento desse local”, explica Vicente.
As primeiras ondas já foram formadas e não passam despercebidas pelos olhos atentos dos mais novos. Eles passam a observar o mundo a partir das experiências vividas no Minas Urbano.
“É muito bom para a comunidade, principalmente porque aqui tá bem no centro de um monte de comunidade, tem o Primeiro de Maio, o Providência, entre outros. E aqui tem uma galera muito grande que gosta muito de esporte e às vezes não tem uma quadra, um negócio estruturado pra poder praticar o esporte. E aqui é uma estrutura maravilhosa”, avalia Asafe Alves Gomes, aluno do basquete 3×3 no Centro.
O impacto no olhar que Asafe e os demais alunos que participam do Minas Urbano desenvolvem sobre o mundo é um retrato claro do que os profissionais envolvidos mais desejam plantar nas crianças e adolescentes que passam por ali, conforme pontua Vicente. “Esperamos fazer cidadãos do futuro, cada vez melhores cidadãos, Atleta seria uma consequência, mas cidadãos com certeza é nossa expectativa”.
As faces do Minas Urbano
Nos próximos episódios desta websérie, vamos mostrar como o Minas Urbano se espalha pelo estado promovendo o esporte e com um legado para a comunidade que vai muito além das linhas das quadras.