O legado do Minas Urbano: de quadras revitalizadas a histórias de transformação

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Amanda Dias/O Fator

Por quatro dias, uma praça, uma rua ou um ginásio vira arena de esportes urbanos. A estrutura chega, movimenta a cidade e depois segue viagem. Mas a passagem do Minas Urbano não termina quando a equipe vai embora. Em cada município, ficam espaços revitalizados, novas oportunidades e histórias que começam a mudar. Em Belo Horizonte, no Centro Mineiro de Esportes Urbanos, esse legado é construído todos os dias, em aulas que vão muito além da prática esportiva.

O Minas Urbano, iniciativa do Governo de Minas em parceria com a Codemge, se dividide entre a arena itinerante e o centro de esportes para impactar as vidas de milhares de crianças e adolescentes no estado. Tudo isso por meio dos esportes urbanos, mais especificamente a escalada, o basquete 3×3 e o break dance. 

O CT, espaço fixo localizado na avenida Cristiano Machado, em BH, recebe quase 400 alunos matriculados em aulas das três modalidades. Já a arena itinerante é uma estrutura que viaja por cidades do interior do estado para levar essas mesmas modalidades a crianças e adolescentes que, muitas vezes, nunca tiveram essa oportunidade.

Mesmo com formatos diferentes, as duas frentes do projeto compartilham o mesmo propósito: deixar uma marca que ultrapasse o tempo de duração das aulas. Isso é parte do que os próprios colaboradores chamam de legado. 

Esportes urbanos na estrada

A arena itinerante do Minas Urbano segue um cronograma movimentado. “É uma arena que a gente monta normalmente na segunda e na terça e acontece nas cidades na quarta, quinta, sexta e sábado. O deslocamento sempre é aos domingos. São quatro dias de arena em todo o território de Minas Gerais”, explica Rubídia Mota, coordenadora da arena. 

A estrutura viaja acompanhada por dois carros, um ônibus de apoio, uma carreta e um caminhão, que transportam todo o equipamento necessário para montar a arena em diferentes tipos de espaço. “A gente costuma comparar com o circo, que é uma comparação que eu acho super justa, que leva alegria e que é itinerante. A gente desmonta tudo e monta na cidade que vai acontecer o evento”, descreve a coordenadora. 

O alcance da arena também é planejado para ultrapassar os limites da cidade visitada. “Foi feito um estudo de mapa com as microrregiões, de forma a atender toda a população. Se a gente está numa cidade onde o Minas Urbano vai acontecer, a gente sempre pede parceria com as cidades vizinhas para levarem as crianças, para as escolas levarem seus alunos para conhecer a arena, de forma a atingir todo o território de Minas Gerais”, explica Rubídia.

Legado palpável

Antes de seguir para o próximo destino, a equipe deixa mais do que a lembrança da passagem pela cidade. “A gente deixa um legado, que é a revitalização de um espaço esportivo. Já revitalizamos pista de skate, já revitalizamos quadra poliesportiva, com diversas modalidades. Essa revitalização acaba também deixando algo para o município despertar para essas modalidades, e uma lembrança da passagem do Minas Urbano”, detalha a coordenadora da arena.

Um dos exemplos mais marcantes desse efeito aconteceu na cidade de Araguari, conforme lembra Rubídia. 

“Nós contratamos dois monitores de skate na cidade, a terceira que a gente passou. E os pais, conversando com os monitores, viram que os filhos têm uma habilidade, uma disposição para a prática do skate. Eles montaram uma escolinha de skate na cidade, que não havia. Às vezes a passagem do Minas Urbano deixa esse legado interno nas crianças, esse despertar”, relata a coordenadora.

A movimentação provocada pela arena também tem reflexo na economia local. A estrutura viaja com uma equipe fixa, mas conta com contratações temporárias feitas diretamente na cidade visitada, o que movimenta a economia durante os dias de evento. “Na chegada à cidade, a gente já tem os monitores que vão ser contratados, os carregadores, os montadores. É um dinamismo”, resume.

Tudo isso acontece em meio a um contato próximo com as crianças, que nem sempre entendem esses impactos, mas sempre aproveitam. “Em cada cidade, cada região, por Minas Gerais ser um território muito extenso, muito cultural, a dinâmica de lidar com as crianças passa por um processo diferente. Os monitores estão sempre adaptando a qualidade ao desenvolvimento da pessoa que está recebendo a instrução”, explica Rubídia. 

As raízes do Minas Urbano

Enquanto a arena viaja pelo estado, o Centro Mineiro de Esportes Urbanos constrói esse mesmo legado todos os dias, com os mesmos alunos. Se a arena planta a semente em cada cidade por onde passa, o Centro é onde essa semente tem tempo de crescer. 

São quase 400 alunos matriculados regularmente, distribuídos em turmas por faixa etária, que frequentam o espaço ao longo de toda a semana. Eles se dividem em aulas de escalada, basquete 3×3 e break dance. Mas, para Juliana Cunha, coordenadora técnica do Centro, a missão do espaço vai além da formação de atletas. 

“Aqui é um centro de treinamento de iniciação esportiva. Como atleta, o esporte é extremamente formador. O foco tem que ser sempre no atleta, e não no ganho, na vitória e tudo mais”, avalia. 

Segundo ela, mesmo os alunos que já têm alguma experiência em outros clubes ou competições encontram, no Centro, um espaço com outra proposta. “Ainda que chegue pra gente, inclusive meninos que já foram atletas em clubes, principalmente os mais velhos, o basquete, o breaking e a escalada têm aqui um fator de iniciação”, completa.

Esse cuidado se traduz em ganhos que extrapolam a quadra, a parede de escalada ou a pista de dança. “O esporte tem o ganho relacional, de você saber se relacionar afetivamente com os colegas. Então, ao invés de estar em algum lugar que não é saudável, ele tá lá na quadra, no esporte que pratica. O esporte realmente tem várias possibilidades de ganho, além das quadras, além da escalada, além do breaking”, completa Juliana.

Encontros que mudam histórias

Esse despertar não é exclusividade de quem vê a arena chegar pela primeira vez a uma cidade do interior. No Centro Mineiro de Esportes Urbanos, ele se repete todos os dias, em alunos que vão descobrindo, aula após aula, quem querem ser, esportistas ou não.

Ana Clara, de 16 anos, é aluna de escalada do Centro e viveu essa descoberta na própria trajetória. Bailarina desde criança, ela conheceu o Minas Urbano pelas redes sociais e, ao visitar o espaço, decidiu também se matricular na escalada.

Mais do que uma nova atividade física, ela encontrou ali um espaço de identificação. “O balé é delicadeza, e a escalada já é um pouco mais bruta. Mas eu consigo conciliar os dois normalmente”, explica.

A adolescente também viu esse efeito de perto, na vida de um amigo. “O esporte ajuda em vários fatores. Eu tenho um amigo que tinha depressão, aí ele jogou basquete, e ele se encontrou no basquete. Eu fico muito feliz até hoje por isso. E eu também me encontrei no balé e na escalada. Isso é muito gratificante”, conta a jovem, que também dá aulas de balé para crianças e enxerga, na experiência como aluna do Minas Urbano, uma influência direta na forma como ensina.

O legado de quem ensina

Por trás de cada aluno que descobre o que ama, há também o trabalho dedicado de quem ensina. No Centro Mineiro de Esportes Urbanos, os professores recebem alunos com diferentes histórias, personalidades e desafios. 

Rodrigo Pinheiro, professor de break dance que dá aulas para estudantes de 7 a 17 anos, chegou ao projeto com uma metodologia de ensino que aprendeu com um grupo restrito. Para ele, o desafio do trabalho está em encontrar uma forma de se conectar com cada aluno, independentemente da bagagem ou das dificuldades que cada um traz. 

“O desafio é eu entender como é que eu consigo chegar até essa criança, pra ela poder se alimentar do break, se alimentar do basquete, da escalada, e sair daqui um ser humano diferente”, explica.

Ao longo dos anos, ele percebeu que essa relação se transforma em uma troca constante. “Eles mais me ensinam do que eu tô ensinando alguma coisa”, resume o professor, que dança break desde os 9 anos de idade.

O resultado desse trabalho aparece nos alunos que avançam nas modalidades, mas também nos que apenas descobrem, ao longo das aulas, um novo interesse, uma nova habilidade ou uma forma diferente de lidar com desafios. É justamente esse o horizonte que o Minas Urbano busca construir, segundo Vicente Costa, gerente geral do Centro Mineiro de Esportes Urbanos.

“Esperamos fazer cidadãos do futuro, cada vez melhores cidadãos. Atleta seria uma consequência, mas cidadão com certeza é nossa expectativa”, resume Vicente.

Entre quadras, paredes de escalada e pistas de dança, em Belo Horizonte ou nas estradas de Minas Gerais, o Minas Urbano constrói um legado que não se mede só em medalhas. Ele está em quem essas crianças e adolescentes se tornarão, dentro e fora do esporte.

Maira Monteiro

Produtos e Tech

Jornalista formada pela PUC Minas, com especialização em Gestão de Mídias Digitais, Business Intelligence e Inteligência Artificial pela ESPM. Ao longo de mais de 15 anos de carreira, liderou projetos digitais em veículos como Rede 98, Record TV e BHAZ e também atuou em marketing digital em agências como a Máquina.

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Encontro contou com a presença de dirigentes do partido e parlamentares do Congresso